terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os Mamutes: hambúrguer de carne humana em cartaz

(por: W. Bastos)

“Os Mamutes” é teatro genuíno. Isso, em si, não deveria se constituir num elogio. Afinal, toda peça teatral deveria, por definição, ser teatro, ora essa. Mas o fato é que hoje os palcos brasileiros foram invadidos por stand up comedies (que nada têm de dramaturgia), por besteiróis televisivos, bem como por monólogos egocêntricos em que artistas narram sua própria “trajetória de vida”...

Em “Os Mamutes” a narração é outra. Completamente ficcional, ela transmite uma verdade bem maior através dos olhos da personagem Isadora Faca no Peito, menina perversa e inteligente, que, trancada em seu quarto, escreve a história de Leon – rapaz honesto,  criado pela avó com base em valores cristãos, que precisa dum emprego para sustentá-los. Ele tenta uma vaga para trabalhar na Mamute's Food, um fast food que vende hambúrguer de carne humana. Para conseguir o cargo, precisa matar um mamute – tipo de pessoa considerada sub-humana por ser fútil, consumista e desprovida de valores éticos. O que fazer: ficar desempregado, sem sustento para si e para a família, sendo julgado um fracasso aos olhos de todos? Ou assassinar um ser humano, por pior que ele seja, e carregar essa culpa, entrando, porém, para o sistema, conquistando um emprego, mas com risco de se tornar também um mamute?


A peça foi escrita por Jô Bilac e está fazendo um circuito de sucesso numa montagem da Cia. Omondé. Estreou na Arena do Espaço SESC (Copacabana, RJ) em março de 2012. Depois disso emendou temporadas no Teatro Café Pequeno (Leblon, RJ), participou do Festival de Inverno do SESC Rio, FITA, entre outros festivais. Em 2013, com a Turnê BR, cumpriu curtas temporadas em cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, tendo sido em Niterói a última encenação da turnê já agora em 2014. Em abril deste ano, “Os Mamutes” fará quatro apresentações no Teatro da Caixa Cultural de Curitiba. Mas vale a pena pesquisar em quais outros cantos eles estarão. Devem ainda rodar bastante por aí, já que, felizmente, a peça tem agradado muito.

A direção é de Inez Viana e elenco, formado por Débora Lamm, Cristina Flores, Carolina Pismel, Ricardo Souzedo, Diogo Camargos, Luiz Antonio Fortes, Jefferson Schroeder, Iano Salomão, Zé Wendell, Junior Dantas e Juliane Bodini. Vencedor do Festival Internacional de Teatro de Angra dos Reis (FITA 2012) nas categorias Melhor Direção, Melhor Atriz Protagonista (Debora Lamm) e Melhor Figurino (Flavio Souza).


Na equipe técnica, destacam-se as participações de Marcelo Alonso Neves (direção musical) e dos músicos Aline Gonçalves, Chico Werneck e Felipe Antello. Cenografia a cargo de Nello Marrese e iluminação de Renato Machado.

A peça desfila personagens surpreendentes e marcantes como: Capitão Man (que surge em cena sempre patinando); dois gêmeos siameses figurões da Mamute’s Food;  Frenesi, a insinuante puta revolucionária; Squel, a jovem que sonha em morrer e se transformar em chuva; Lola Blair, o transformista militante, e Shiva Moon, a apresentadora de programa infantil propagandista da Mamute’s.

Repleto duma comicidade ácida e questionadora, o texto de Jô Bilac nos faz repensar a vida e os valores em que sociedade de consumo nos mergulha sem que nos demos conta. Será se estamos perdendo nossa humanidade? A quem interessa que nos tornemos “mamutes”? Ao aderirmos ao consumismo, estaríamos também virando objetos de consumo?

A obra teatral em questão não nos traz soluções. Antes zomba das respostas fáceis e, através de um humor negro bastante perturbador, nos bota para pensar. E essa não é, afinal, a grande missão da arte?

sábado, 21 de dezembro de 2013

Mais um inusitado lançamento de Arnaldo Antunes

(por: W. Bastos)

– Você já ouviu o Disco do Arnaldo Antunes?
– Qual?
– Disco.
O estranho diálogo acima deve estar se repetindo em vários cantos do país, fomentado pelo fato de o novo CD do ex-integrante dos Titãs se chamar justamente: Disco. Mas isso não é surpreendente para quem acompanha a trajetória do artista, que iniciou sua carreira solo em 1993 com um disco cujo nome é... Nome. A este se seguiram Ninguém (1995), O Silêncio (1996), Um Som (1998), Paradeiro (2001), Saiba (2004), Qualquer (2006), Ao Vivo no Estúdio (2007), Iê, Iê, Iê (2009), Ao Vivo lá em Casa (2010) e Acústico MTV (2012).


Neste Disco encontramos 15 faixas inéditas, umas mais agitadas, outras mais lentas. Não é à toa que a ideia inicial era que o CD se chamasse “Bipolar” (e fosse lançado em 2014, incluindo mais músicas pesadas para contrastar com as baladinhas). A imagem da bipolaridade se manteve no novo título, que nos remete aos antigos discos de vinil, apresentando sempre duas faces (os habituais lados A e B).


Vivemos uma época em que a maioria das pessoas acessa e ouve músicas isoladas: baixa só as que prefere, pela rede mundial de computadores. Se, por um lado, o acesso às músicas aumentou; por outro, a fruição – o deleite estético proveniente da audição de cada uma – se tornou mais superficial também, pela canção ser descolada do conjunto das outras que, com ela, integram uma composição artística mais completa, qual seja: o disco.


Mas se engana quem pensar que este lançamento de Arnaldo Antunes seja um libelo contra a nova forma de curtir músicas propiciada pela internet. O que ele parece querer é simplesmente problematizar, fazer a gente refletir um pouco sobre esse novo modo de chegar às músicas, que também traz muito de positivo. Aliás, antes de o disco sair, Arnaldo foi lançando e disponibilizando as canções pela internet, uma por mês, ao longo de quatro meses, enquanto ia produzindo outras em estúdio.


No final das contas, mesmo sem ser o melhor do artista, o CD ficou bom do início ao fim. Conta com a participação dos músicos Betão Aguiar, Chico Salém, Curumim, Edgard Escandurra e Marcelo Jeneci (sendo essa a formação da banda de Arnaldo já há quatro anos). Começa com a calminha e bastante poética “O Fogo”, composta em parceria com João Donato. A ela se segue a excelente “Muito muito pouco”, roque com crítica social reflexiva, inteligente e longe do panfletário, iniciando com uma estrofe impactante: “tem muito carro e muito pouco chão/ tem muita gente e muito pouco pão/ tem muito papo e muito pouca ação/ muito parente e muito pouco irmão”.  Depois vem uma bela canção assinada por Arnaldo, Marisa Monte (ex-parceira na banda Tribalistas) e Dadi Carvalho, um dos pontos altos do CD: “Dizem (quem me dera)”, que certamente será um dos hits. E vão se seguindo mais e mais boas músicas, que cada um deve ouvir e julgar por si mesmo. Gostaria de destacar a divertida “Ela é tarja preta”, a irônica “Ah, mais assim vai ser difícil”, e a contestatória “Querem mandar”, que tem versos bem apropriados para este ano o ano de 2013, que desde junho, com protestos contínuos, tem sido bastante inconformista em relação aos donos do poder e seus desmandos: “enchendo cofres com dinheiro dos pobres/ espalham medo com impulsos de morte/ e querem bem mais/ querem mandar/ a gente não vai aceitar/ nem entrar nessa/ a gente não vai entregar/ o que interessa...”


A gente não precisa mesmo aceitar tudo que nos impõem, nem na política, nem na cultura. Que tal sair da mesmice e incorporar Arnaldo Antunes à sua discoteca?

domingo, 20 de outubro de 2013

Fiocruz Atravessou a Rua – Abbey Road Manguinhos

(por: Joyce Enzler)

Ato contra a prisão do pesquisador Paulo Bruno
Nesta quinta, 17 de outubro, a Fiocruz realizou ato em repúdio a prisão do professor e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Paulo Roberto de Abreu Bruno, no dia 15 de outubro, na manifestação dos professores. O diretor da Ensp, Hermano Castro, disse para um auditório lotado que a Escola paralisará suas atividades até o pesquisador ser solto. “Não se pode prender um cidadão por estar se manifestando”, disse.

O presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, ressaltou que Paulo Bruno realiza pesquisa em consonância com a história da Fundação. “Essa casa sempre foi aliada dos movimentos sociais. Não há dúvida sobre a legitimidade da Fiocruz e dos seus profissionais”, falou Gadelha. Eduardo Stotz, professor, pesquisador e coordenador do Fórum de Articulação da Ensp com os Movimentos Sociais explicou que Paulo Bruno é integrante deste Fórum, que foi criado alguns dias antes do começo das manifestações de junho deste ano, e estava registrando estas atividades para pesquisa sobre movimentos populares urbanos, produzida na Ensp.

O ex-ministro da Saúde e senador Humberto Costa esteve no ato e disse estar à disposição para se somar a estas vozes. Alex Molinario, vice-diretor em Desenvolvimento Institucional e Gestão (VDDIG), falou que todos devem se posicionar e se manifestar contra qualquer injustiça cometida pelo Estado: “A livre expressão é um direito do cidadão e não somente da mídia”.

Enquanto acontecia, na Fiocruz, ato contra a arbitrariedade policial, lá fora, Manguinhos voltava a ser um território em guerra. Cerca de 40 jovens, revoltados após a morte do rapaz de 17 anos, também chamado Paulo, jogaram pedras na polícia que revidou com tiros e bombas, segundo vários moradores. Da Fundação, todos ouviam o barulho assustados. Na rua, uma jovem de 17 anos foi baleada na perna. Então, um ato se interliga no outro como que para reacender nesta Fundação todo o seu passado de luta ao lado dos movimentos populares. Monique Cruz, moradora e militante do Fórum Social de Manguinhos, entrou no auditório e colocou todos a par do que acontecia do lado de fora dos muros.

Monique contou que Manguinhos estava uma praça de guerra e que a população ficou revoltada com a morte do rapaz após ser abordado pela polícia, num beco da favela. “Peço a solidariedade desta casa. Está na hora de unificar as lutas”, disse. A Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc SN), Justa Helena Franco falou que a morte do rapaz a diminuiu porque faz parte da raça humana. Além do relato, Monique relembrou outros casos de violência policial contra moradores de Manguinhos, que, como qualquer favela, tem um pouco de navio negreiro. E como se o gigante acordasse, foi tirada uma comissão da Fiocruz para negociar o fim dos ataques aos moradores.

Paulo Gadelha, Hermano Castro, Carla Moura do Fórum de Articulação da Ensp com os Movimentos Sociais, os representantes da Asfoc, Justa Franco e Alexandre Pessoa e mais Pedro Teixeira, Marcus Vinicius Giraldes, Francisco de Abreu Franco e Paula Ávila de Oliveira atravessaram a rua em direção à favela. Este gesto tão simbólico quanto à foto da capa do LP dos Beatles, Abbey Road, diz muito.

A Comissão se encontrou com algumas lideranças comunitárias. Após a conversa, o presidente da Fiocruz negociou o término da guerra com o Capitão Toledo. As bombas cessaram. Choveu muito. Como se lavasse tudo de ruim que aconteceu, hoje, ontem, há 500 anos.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cine Joia, Juan e a bailarina

(por: W. Bastos)

Hoje em dia é difícil ver um bom filme no cinema, pois bons filmes não surgem toda hora e bons cinemas fecham suas portas a todo momento. O que tem de sobra por aí são salas careiras em shopping centers, exibindo fitas idiotas. Mas aí uns amigos me deram a dica dum cinematógrafo porreta.


Animado com a ideia de desfrutar novamente o prazer de curtir a sétima arte, tomei um ônibus e segui para o indicado Cine Joia. Este se localiza na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 680, no bairro Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se duma simpática salinha de cinema, com capacidade para 87 pessoas, no subsolo de uma pequena galeria comercial. É reduto dos apreciadores de filmes artísticos, nacionais e internacionais, clássicos, independentes e alternativos ao circuito comercial cinematográfico. As poltronas são confortáveis, mas sem aquele exagero luxuoso que, nos modernos cinemas, fazem a gente assistir aos filmes quase deitado (o que, aliás, é péssimo pra coluna). Estilosos, os assentos têm cores diferentes que vão se alternando. A decoração meio retrô nos remete à época em que era moleza encontrar cinemas de rua, aos quais se podia ir sem a obrigação de reservar o ingresso previamente.



No horário em que cheguei, iria começar a sessão de “Juan e a Bailarina” (La Sublevación). O filme é um drama, com toques humorísticos, realizado numa parceria Brasil-Argentina, com direção de Raphael Aguinaga. Nos 95min de exibição, o espectador é apesentado a um grupo eclético de idosos habitantes de um asilo decadente cuja rotina é abalada pela notícia de a Igreja Católica ter clonado Jesus. A essa informação, que recebem via tevê, se soma a chegada de uma nova moradora abandonada pela família. E, como se não bastasse, o cotidiano dos velhinhos se tumultua ainda mais pela entrada de férias da enfermeira responsável pelo asilo, a qual deixa o filho na gerência do lugar durante sua ausência.

O filho da enfermeira, ao assumir a gestão provisória do local, submete os idosos a uma sérire de opressões. Enquanto os moradores do asilo lutam contra ele, terão que juntar forças e superar limitações físicas para saírem à procura da cura da AIDS, visando com isso salvar Jesus, agora infectado pelo vírus HIV (!). Nessa jornada, precisarão enfrentar seus medos, mas fortes amizades vão se estabelecer, mostrando que é justamente entre os mais fragilizados que a solidariedade se faz imprescindível.


O único senão sobre o prazer de assistir à obra em telas brasileiras está na lamentável tradução do título. La Sublevación deveria ser traduzido como “O Levante” (ou até mesmo “A Sublevação”). De forma alguma se justifica chamá-lo “Juan e a Bailarina”, não só pelo fato de não corresponder ao sentido do título em espanhol, mas também pelo personagem Juan não ser assim tão central na história, além de nela não haver propriamente uma “bailarina”, mas apenas breves cenas de dança envolvendo a novata no asilo (e as lembranças da falecida mulher de Juan).



Bem, apesar de eu me “sublevar” contra essa escolha dos tradutores brasileiros, é fato que “Juan e a Bailarina” é um programão. E o Cine Joia também, pois, no geral, os filmes lá exibidos valem muito a pena. Quem estiver em terras cariocas não deixe de conhecer.

O horário de funcionamento é das 12h às 22h30min (exceto segunda-feira, quando permanece fechado). Os telefones são: (21) 2236-5671 e 2236-5624. A programação completa pode ser conferida em: http://cinejoia.wordpress.com.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Por que nunca entrei no Facebook

(por: Eugênio Bucci)

Eugênio Bucci é professor da
ECA-USP
Foto: Camila Fontana
– Não, não estou no Facebook.

Quando a gente diz isso numa roda, num jantar ou num ponto de ônibus, a conversa silencia. Olhares incrédulos saltam sobre nossa figura tímida, como luzes de otorrinolaringologistas do futuro, tentando investigar nossas limitações ocultas. Analfabetismo digital? Conservadorismo? Alguém arrisca um “em que planeta você vive?”. Outro sente pena e tenta ser simpático: “Até minha avó está no Face, é tão friendly”.

Aí, vem aquela voz categórica, que procura dar o sinal definitivo dos tempos: “Minha filha já nem usa mais e-mail. Com ela, é tudo pelo Facebook”. É assim que os 46,3 milhões de brasileiros que mantêm um perfil pessoal na maior rede social do planeta tratam os outros, os que estão de fora. Fazem ar de espanto. Fazem chiste, bullying, assédio moral.

E não obstante:

– Não, não estou no Facebook.

E acho que tenho razão. Errados estão os 845 milhões de viventes que, em todas as línguas, em todos os países, puseram lá suas fotografias (tem gente sem camisa!) ao lado de seus depoimentos confessionais. Viventes e morrentes, é bom saber. Há poucas semanas, o escritor Humberto Werneck, em sua coluna dominical no jornal O Estado de S. Paulo, registrou um dado um tanto mórbido. Quando um sujeito morre – isso acontece –, o perfil do defunto fica lá, intacto. O perfil do morto não entra em putrefação, nem vai para debaixo da tela. Os outros usuários, estes vivos, mas desavisados, podem “curtir” até cansar. O perfil não se mexe nem sai de cena. Não há coveiros digitais no tempo real. De todo modo, como não frequento isso que Werneck chamou de “cemitério virtual”, não posso saber como é. Apenas presumo que deva ser aflitivo. Também por isso, ali não entro nem morto.

Errados estão os 845 milhões de viventes que, em todas as línguas, puseram lá suas fotografias.
  
A fonte da minha resistência, contudo, não está nessa situação terrível, não da morte em vida, mas da vida em morte a que a grande rede pode nos sentenciar. Também não está nas fotos de gente sem camisa. A evasão de intimidades em que estamos submersos é a regra totalitária. Até mesmo a fé – algo ainda mais íntimo que o sexo – ganhou estatuto de espetáculo nas telas eletrônicas, e a transcendência do espírito se converteu em explicitude obscena. Entre o lúbrico e o religioso, não é o festival abrasivo nauseante de intimidades que me mantém distante. Não é também a frivolidade.

O que mais me afasta desse tipo de rede social é o comércio. Nada contra as feiras livres, que, em qualquer lugar, em qualquer tempo, concentram as mais autênticas vibrações da cultura (a melhor porta de entrada para o viajante que quer conhecer uma cidade é a feira livre). Agora, o comércio no Facebook é outra história. Ele é ainda mais funéreo que a presença dos clientes mortos que não pagam nem arredam pé. Ali, a mercadoria é o freguês, o que vai ficando cada dia mais evidente, com denúncias crescentes sobre o uso de informações pessoais mercadejadas pelos administradores do site. Ali dentro, as mais exibicionistas intimidades adquirem um sinistro valor de troca para as mais intrincadas estratégias mercadológicas.

Já no tempo do Orkut – no qual também nunca pus os pés, ou os dedos, ou os dígitos – esse fantasma existia. Hoje, no Facebook, o velho fantasma é corpóreo, material, indisfarçável em seu jogo desigual. O usuário alimenta o usurário – com seu próprio trabalho, não remunerado. Clicando “curti” para lá e para cá, o freguês fabrica alegremente o “database marketing” que o vende sem que ele saiba. Estou fora. Muito obrigado.

Desconfio que esse padrão de relacionamento não é leal e não vai tão longe quanto promete. Não se mantiver o mesmo modelo. Mesmo como negócio, o Face dá sinais de ter batido no teto. A empresa abriu seu capital há menos de um mês e, desde então, as ações despencam. Já perderam mais de 24% de seu valor. Nesse período, o fundador e presidente executivo, Mark Zuckerberg, ficou US$ 4,7 bilhões mais pobre. O Facebook precisa mudar – e, por enquanto, mudará sem minha ajuda, sem meu trabalho gratuito. Seguirei com meu cômodo bordão:

– Não, não tenho Facebook.

Dá para viver sem. Se me acusarem de dinossauro lamuriento, posso me defender. Tenho celular e sei operar controle remoto de televisão. Uso o Google, mas com um pé ressabiado bem atrás. Sabia fazer download de planilha Excel, mas esqueci. A tecnologia nos engolfa, eu bem sei, e não há como ficar de fora. Mas uma coisinha ou outra a gente ainda pode escolher. Um “não” ou outro, a gente ainda pode dizer.

– Não, não estou no Facebook.

(ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA Nº 734, DE 11 DE JUNHO DE 2012)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Resistir até a tarifa sumir!

(por: Coletivo Anarquista Bandeira Negra)

Um dos fatores que deu grande força às mobilizações (1) foi a criminalização do protesto e a resposta brutal da polícia. Centenas de companheiras(os) foram detidos e liberados após pagarem fianças exorbitantes, uma tentativa de silenciar e intimidar as reivindicações populares. A violenta repressão policial foi a fagulha para um povo em estado de barril de pólvora, e as manifestações vêm se fortalecendo.


Os setores reacionários e a grande mídia, que criticaram e criminalizaram duramente as manifestações, agora retrocedem pela força do povo nas ruas. Sua estratégia tem sido muito clara: buscam “domesticar” as manifestações pregando um pacifismo inerte e pautas genéricas que não possibilitam conquistas concretas .

O povo não esteve dormindo até a semana passada. Nenhum dos nossos direitos foram dados de presente, foram conquistados. Os capitalistas lucram com a mercantilização dos direitos sociais (saúde, educação, transporte, etc.), e o Estado e governos impulsionam este estado das coisas. Discursos por “um país melhor”, “melhor uso dos impostos” ou “contra a corrupção” erram o alvo, porque ignoram a natureza do Estado capitalista. A corrupção é parte integrante deste sistema, que criou as leis para manter o domínio das classes dominantes. Quem reclama do descumprimento das regras do jogo, no fundo, está legitimando o funcionamento do jogo: injusta não é apenas a corrupção, mas todo o sistema capitalista, baseado na exploração da classe trabalhadora e na opressão.

Precisamos pensar nossas pautas e lutar objetivamente contra os problemas mais sentidos pelo povo. Nossa solidariedade é entre os de baixo. Por isso entendemos que não estamos aqui para cantar hinos ou levantar a bandeira do país: o nacionalismo é um instrumento de conciliação entre as classes, o que nos reúne com nossos inimigos sob a mesma bandeira (os empresários do transporte e o prefeito também são brasileiros e “contra a corrupção”).

Florianópolis possui um grande histórico de luta pelo transporte, como as Revoltas da Catraca de 2004 e 2005, quando a luta popular também conquistou a derrubada de aumentos na tarifa através da ação direta, com o povo nas ruas. A cidade criou uma cultura de reivindicação sobre essa pauta, que culminou na defesa da Tarifa Zero - modelo em que o transporte público é gratuito, financiado pelos setores mais ricos da sociedade e com controle popular. A força das manifestações em todo o país e o acúmulo da discussão sobre transporte na cidade colocam a Tarifa Zero como nosso objetivo estratégico, uma possibilidade concreta de conquista.

Estamos na rua não apenas na luta pela Tarifa Zero, mas também contra a criminalização da reivindicação popular, em solidariedade às lutas nas outras cidades! Dia a dia estaremos construindo nossas ferramentas organizativas, e acumulando força social, pois violento é o sistema que excluiu a maioria da população das riquezas produzidas; violento é um sistema que mesmo abundante ainda reserva a miséria, a fome e a escassez à população pobre; violentos são os depejos e a repressão policial decorrentes das obras de megaeventos como a Copa e Olimpíadas. Violenta é a realidade a que o povo está submetido!

É o momento de fortalecer a organização dos oprimidos, através de nossos movimentos sociais, entidades de trabalhadores e de estudantes, espaços comunitários e culturais. Somente nossa articulação, pautada na independência de classe, é que poderá criar força para influir nos rumos da sociedade. Isso é um requisito para termos capacidade de resistir aos ataques que recebemos das classes dominantes e acumular forças para virar a balança pro nosso lado, avançar nas conquistas rumo à sociedade sem classes, de liberdade e justiça. As possibilidades e limites das manifestações no país estão em disputa: é hora de irmos às ruas!

Lutar, Criar, Poder Popular!

Nota:
(1) As mobilizações a que o texto faz referência foram as intensificadas no Brasil a partir de junho de 2013.

(Publicado originalmente em – http://www.anarkismo.net/

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Festa Julina Camponesa


Venha participar do Arraiá de Campelo, fruto de 5 anos de organização do Coletivo de Jovens do Assentamento Zumbi dos Palmares, em comemoração ao dia do Trabalhador Rural e da Cultura Camponesa.

Vai ter quadrilha, comidas típicas e muito forró!

Neste sábado, 27 de julho de 2013.
A partir das 18h.
Local: Assentamento Zumbi dos Palmares, núcleo 4, Campelo, Campos dos Goytacazes, RJ, Brasil.
(próximo ao posto de saúde de Campelo)


(Recebido por correio eletrônico)