segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Microfonia: ruido perturbando a mesmice da cultura

(por: Winter Bastos)

Cara, por que consumir revistas semanais direitistas cujo suplemento "cultural" só traz o que já está estabelecido e dominante na cultura da sociedade, sem apresentar nada de transgressor ou ousado? Comprando essas porcarias, mesmo que não vá ler a parte política, você ainda dá força e grana para essas publicações elitistas que, pelo estímulo ao neoliberalismo, nos tornam cada vez mais explorados.

Como escapar da mesmice dos "cadernos culturais" que normalmente estão disponíveis por aí?

Há algumas opções. O jornal Microfonia, de João Pessoa (PB), é uma delas. A diagramação é boa; os temas, variados: música, cinema, histórias em quadrinhos, espetáculos diversos... Por mais que muitos não gostem das bandas ou dos filmes abordados, ninguém ficará entediado com a leitura: vão ser vistas muitas coisas que a mídia convencional nunca enfoca.

Recebemos recentemente os números 22 (setembro) e 23 (novembro/2014).


Logo na primeira página do número 22, há uma entrevista com a banda Pröjjetö Macabrö, formada só por duas pessoas: Adriano Onairda (vocal/guitarra) e Vando Sujeira (bateria/vocal). Falam principalmente do primeiro CD que acabam de lançar, chamado Ruptura.  A publicação traz ainda resenhas dos discos Resistência (da banda Mollotov Attack, de São Paulo), Do Pescoço pra baixo é canela (da Knoc Down, de Pernambuco), Hitting Arround (da Mad Grinder - RN), Sexy Offender (de Glauco King & The West Wolves - Ceará) e Helga (da banda carioca de mesmo nome). Ainda nesta edição encontramos uma boa crítica ao ótimo livro Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotten Vegetables - os primeiros anos, sobre a lendária banda de roque pauleira udigrúdi californiana Dead Kennedys, que só lançou discos por gravadoras independentes, mas conseguiu levar sua música contestadora e iconoclasta aos mais distantes cantos do mundo.

O jornal Microfonia nº 23 tem, de início, uma entrevista com Fred, vocalista da banda Não Conformismo, que lançou o disco Autoflagelo da Humanidade em vinil. É explicado o porquê da escolha deste formato. Fred, colecionador de discos desde a adolescência, esclarece que o vinil continua sendo apreciado por uma pá de gente. Não há que se falar em "volta do vinil", como a mídia hegemônica anda repetindo por aí. O vinil nunca foi embora, portanto não se pode falar em "volta". Andar com um discão embaixo do braço para ir ouvi-lo na vitrola dum amigo no bairro vizinho nunca teve nada de esquisito, nem nos anos oitenta, nem hoje em dia.

O Microfonia 23 fala ainda das bandas Licenciosa (PB), Riiva (Finlândia), Juventude Maldita (SP), Horda Punk (SC),  Final Fight (SP) e dos conjuntos: Alice no País do LSD, Derrube o Muro, Agressivos e Pastel de Miolos (todos da Bahia). Ainda no campo da música, comenta-se o DVD Punhos & Vozes - Rasgando no ar, da banda paulista Cólera, gravado em 2011.

Microfonia conta ainda com a coluna "Atrás da Porta Verde", que traz inusitadas críticas sobre cinema pornô, bem escritas a ponto de valerem a pena serem lidas até por quem não curte esses filmes: é, no mínimo, engraçado. Há também a seção "Zubilândia" que fala sobre livros e filmes de terror.

Contatos: jornalmicrofonia@gmail.com, www.microfonia.net. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Tratando do Aviso final nº 32

(por: Winter Bastos)

Chegou às minhas mãos já há algum tempo a trigésima segunda edição do fanzine Aviso Final, que já está sendo publicado há mais de duas décadas pelo incansável professor Renato Donisete. O número anterior havia saído um ano antes, mas isso é compreensível em se tratando dum fanzine, ou seja, uma publicação independente, amadorística, feita por prazer, sem lucro e com muito amor. 

Este AF 32 foi lançado oficialmente no dia 13/04/2014 no Espaço Gambalaia em Santo André (SP) quando da apresentação das bandas O Livro Ata e Giallos. A capa deste número ficou bem interessante: a foto duma singela moçoila inserindo uma fita cassete num daqueles antigos gravadores (que não se veem mais por aí). O sorriso inocente da garota ressalta o ar retrô da fotografia, o qual contrasta de maneira instigante com o logotipo da publicação, idealizado por 1berto Daróz, que nitidamente se influenciara pela estética roqueira udigrúdi, suja e transgressora.


Sem blá-blá-blá, Aviso Final entra de sola logo na página inicial com uma entrevista com a banda Giallos. O conjunto se influencia pela temática do "cinema exploitation" (que pode ser traduzido com cinema apelativo): gênero cinematográfico que aborda seus temas de forma mórbida ou sensasionalista. Giallos, aliás, é um subgênero dentro deste campo cinematográfico, valorizado pela banda. Para saber mais, vale visitar: http://giallos.bandcamp.com//.

Na página 5, Renato Donisete nos fala de seu livro Fanzine na Educação: algumas experiências em sala de aula, lançado pela editora Marca de Fantasia (www.marcadefantasia.com).

Em seguida vem uma entrevista com o artista plástico Daniel Melim, grafiteiro que, com suas intervenções urbanas, leva beleza e questionamentos múltiplos aos transeuntes de São Paulo, principalmente. O trabalho desse cara, tão importante para a cultura, pode ser conferido em: www.melim.art.br.

Na página 10 anuncia-se o retorno da banda Varsóvia, caracterizada por influência do roque punk inglês e por letras melancólicas e introspectivas. Vê-se algo sobre a nova fase deles em: https:soundcloud.com/varsoviaweb/sets/luciez e também em: https://www.youtube.com/watch?v=HQge-y75ef8.

O fanzine Aviso Final nº 32 se encerra com chave de ouro com a história em quadrinhos Mc Body, que avacalha um bocado com as lanchonetes comida-rápida multinacionais.

Para contatar essa excelente publicação alternativa, basta escrever pro Renato Donisete – caixa postal 1035, Bairro Barcelona, São Caetano do Sul (SP), CEP 09560-970 ou avisofinal@gmail.com. Também dá pra acessar www.fotolog.com/aviso_final.       

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Achiamé está morto, porém vive!

(por: GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí)


Os anarquistas historicamente deram ênfase ao conhecimento e difusão da teoria libertária. Panfletos, jornais, peças teatrais, comícios, e... Livros. Livros! A vida de um homem foi dedicada quase que inteiramente à livros. Seu nome? Robson Achiamé.

Caso você seja anarquista, caro leitor, talvez não tenha o conhecido, ou mesmo trocado nenhuma palavra com Achiamé, mas temos certeza que se olhar a sua estante destinada à teoria anarquista, certamente que encontrará um rico acervo de obras editadas por uma certa "Editora Achiamé".

O Camarada Robson, 71 aos, 47 dedicados à imprensa libertária morreu, porém vive. Observando os comentários de condolências, é possível entrever um homem bondoso, gentil, que enviava caixas de livros sem nem mesmo pedir o pagamento prévio (e por vezes, nem mesmo pagamento), um verdadeiro anarquista, que tinha prazer em divulgar as ideias libertárias.

No Piauí, cuja política é caracterizada por um forte monopólio da mídia por parte de oligarquias empresariais, a criminalização de movimentos sociais, e um tradicionalismo beirando aos czares russos, o anarquismo insiste em romper o solo árido da transformação social, e encontra resposta positiva entre trabalhadores, estudantes e populares. Foi por meio de um grande número de livros editados por Robson Achiamé que vári@s companheir@s que hoje compõem o GEAPI adentraram nas lutas e na organização anarquista. Indiretamente, o GEAPI tem muito de Robson Achiamé, assim como tantos grupos de estudos, coletivos, associações, e tantas outras formas de anarquistas dividirem, partilharem e multiplicarem as lutas e os sonhos. 

Acreditamos que a vida e a obra de Achiamé jamais serão "repetidas", mas que sejam o espelho de novas experiências em edição de livros anarquistas no Brasil, assim como a dedicação, a amizade e o compromisso de Robson. 

O anarquismo em língua portuguesa com certeza perde em muito com a morte do companheiro, mas não cessará. Esta talvez seja a forma de agradecer todo o esforço e dedicação de Robson Achiamé Fernandes: Militando, organizando e lutando por um mundo novo, o mundo que carregamos em nossos corações. 

Que a terra lhe seja leve!

Para sempre, PRESENTE!

(Publicado originalmente em http://anarquistas-pi.blogspot.com.br/, por ocasião do falecimento de Robson, que se deu a  09/11/14)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Sindicato verifica condições insalubres na redação do jornal ‘Lance!’

(por: Sindicato dos Jornalistas-RJ)

De olho no Lance. A diretoria do Sindicato dos Jornalistas encontrou um cenário caótico ao chegar na redação do jornal esportivo ‘Lance!’ nesta sexta-feira (19/12/14). De mudança, a empresa tem submetido os trabalhadores a condições insalubres em um ambiente cheio de lixo e poeira, favorecendo o surgimento de doenças respiratórias entre os jornalistas. Os profissionais precisam ainda desviar de armadilhas, como fios espalhados pelo chão e piso solto, e enfrentar o calor de dezembro sem ar condicionado. A mudança reduziu o espaço da redação, o que obrigou os cerca de 40 funcionários da empresa a se amontoarem nas mesas que restaram. O Sindicato tomara as medidas cabíveis após o recesso de fim de ano no Judiciário.

Não será a primeira vez que o jornal será denunciado por irregularidades trabalhistas. Até outubro deste ano, a empresa participava de mesa redonda com o Sindicato onde se comprometeu a pagar os atrasados da participação de lucros e resultados prevista na convenção coletiva. O ‘Lance!’ disse ainda que adotará o ponto eletrônico e pagará adicional noturno a partir de janeiro.

O Sindicato ainda cobra a resolução de problemas como o não pagamento de horas extras; acúmulo de função; jornada estendida por mais de seis dias sem folga; falta de clareza na compensação de folgas; ausência de equipamentos de proteção individual; estagiários desempenhando trabalho de jornalista; falta de ergonomia e equipamentos ultrapassados. A empresa demitiu 30 profissionais no Rio este ano.

(Publicado originalmente em: http://jornalistas.org.br/index.php/sindicato-verifica-condicoes-insalubres-na-redacao-do-jornal-lance/)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Segundo turno da eleição presidencial de 2014 no Brasil: Dilma ou Aécio?

(por: W. Bastos)

A imprensa capitalista (Globo, Record, SBT, Revista Veja e outras porcariadas elitistas) tem falado muito em polarização entre PT e PSDB. Polarização significa estar em polos diferentes, ou seja, localizar-se em posições antagônicas. Então, pelo que se escreve por aí, os dois partidos citados teriam programas completamente contrários.

Vamos listar então algumas questões que foram (ou são) importantes para o povo nos últimos tempos: leilões dos poços petrolíferos da Petrobrás, realização da Copa do Mundo 2014 no Brasil, venda do Campo de Libra (reserva do pré-sal) à iniciativa privada, construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, transposição do Rio São Francisco, privatização dos portos, continuidade do desenvolvimento de usinas nucleares, fechamento de rádios livres, privatização dos aeroportos, realização das Olimpíadas 2016 no Brasil...

Todos esses projetos são péssimos para o povo brasileiro. Será se algum dos dois candidatos combate algum desses absurdos? Não! Tanto Dilma quanto Aécio apóiam absolutamente todos esses tópicos listados acima e explicitam isso em seus discursos. Apenas, cada um deles se declara “mais competente” em desenvolver esses projetos nocivos.   

Então, agora será Dilma ou Aécio? Chegou a hora de escolher? Sempre é hora de escolhas, na verdade. Mas a escolha real, que faz diferença para nós que estamos aqui embaixo, não é decidir quem será a pessoa que irá nos explorar e dominar nos próximos anos. A verdadeira questão que se apresenta hoje para nós é: qual caminho escolheremos para transformar radicalmente a sociedade? A ação parlamentar, eleitoral, que dá poder a meia dúzia? Ou a ação direta, através do próprio povo organizado por meio de sindicatos livres, grêmios estudantis, centros acadêmicos, associações de moradores e outros movimentos sociais diversos? Para mim a resposta é clara: a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra deles próprios, organizados de maneira não hierárquica. Em vez de canalizar nossas energias para a farsa eleitoral, temos que atuar junto ao povo sem tentarmos nos projetar acima dele, para cargos da política burguesa.  Vote nulo e venha para a luta de verdade: a luta política real, popular, coletiva – e que se faz todos os dias.


FORA DILMA! FORA AÉCIO! VOTE NULO: NÃO SUSTENTE PARASITAS!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

João Antônio – uma literatura atracada na vida

(por: W. Bastos)


João Antônio Ferreira Filho, o escritor conhecido apenas como João Antônio, nasceu 27/01/1937 na capital paulista – filho dum português de Trás-os-Montes (de quem herdou o nome) e da mestiça carioca Irene Gomes Ferreira.
Seu pai era bom tocador de bandolim e amigo de grandes músicos como Garoto e Geraldo Ribeiro da Silva.
João Antônio, o filho, passou a infância no bairro Presidente Altino. Quando o menino estava com cinco anos de idade, seu pai (então funcionário do Frigorífico Armour) resolveu comprar um armazém daqueles que vendiam de tudo. O estabelecimento ficava na Rua Caiowaa, no bairro Pompeia, atrás do campo do Palmeiras. Lá o futuro escritor começou a ver com mais atenção a miséria do povo que viria, mais tarde, habitar sua literatura.
Em 1951, a família se mudou para Vila Jaguara. O pai comprou uma vendinha e depois uma pedreira. E, com este negócio da pedreira, acabou tendo enorme prejuízo e perdendo tudo que tinha até aquele momento.
Em 1953, eles vão para Vila Anastácio. Lá o jovem João Antônio trabalha como contínuo e, à noite, estuda no Colégio Campos Sales, no bairro paulista da Lapa. Começa a namorar, escrever e ler bastante. Aos sábados, pega a bicicleta e, levando escritos seus, vai ao bairro Moema, onde o gaúcho Homero Mazarém Brum patrocina a publicação de um jornalzinho chamado O Crisol.
Nessa mesma época, conhece prostíbulos, botequins, a boêmia e os malandros da noite (meio que seria frequente em sua literatura). Aos 16 anos é surpreendido jogando sinuca. O dono do bar leva uma multa violenta. João Antônio toma uma bronca do pai, que lhe diz: “Você tem todos os vícios que eu conheço e até os que eu não conheço”.


Depois do emprego de contínuo, ele vai trabalhar no Frigorífico Armour (como o pai fizera antes). Em seguida trabalha como bancário na Lapa, depois na redação duma agência de publicidade no centro de São Paulo.
Termina o curso normal e vai fazer Jornalismo na Escola Cásper Líbero. Aliás, quando começou o curso ele já tinha escrito vários contos curtos para o jornal O Tempo. Por essa época, ganha um concurso de contos promovido pela revista A Cigarra. O curioso é que a narrativa vencedora é “Fujie”, mas o texto que acaba sendo publicado é outro também de sua autoria, chamado “Frio”. É que, apesar de reconhecerem o inestimável valor literário de “Fujie”, consideraram-no – pela sensualidade da narrativa – inadequado para uma “revista de famílias” como A Cigarra.
Depois disso João Antônio ganha concursos literários do jornal Tribuna da Imprensa (com o excelente conto “Meninão do Caixote”) e do periódico Última Hora (com “Natal na Cafua”).
No fim da década de 50, muda-se para o bairro Jaguaré. Lá, na sexta-feira 12 de agosto de 1960, um incêndio destrói toda a casa da família. Queimam-se todos os textos que João Antônio havia escrito, inclusive os originais de sua principal criação: “Malagueta, Perus e Bacanaço”. O estrago só não foi maior porque alguns contos ali contidos já haviam sido publicados em jornais e revistas literárias.
Mesmo assim é um choque para um escritor perder qualquer trecho de sua obra. O pai disse a ele na ocasião: “Pobre tem que fazer tudo duas vezes, e muito bem feito, se não quiser fazer outra vez”.
Assim, Mário da Silva Brito conseguiu uma autorização para João Antônio usar com privacidade e conforto a cabine 27 da Biblioteca Municipal Mario de Andrade, onde ele pôde reescrever aquele que ficou conhecido como seu mais importante livro: “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Este veio a ser lançado em 1963 pela Editora Civilização Brasileira.


Em 1964, João Antônio foi morar na cidade do Rio de Janeiro, pela qual logo se apaixonou. Começou a trabalhar no Jornal do Brasil. Escreveu uma série de reportagens sobre o declínio da vida boêmia da Lapa carioca. Esse texto recebeu o título “A Lapa acordada para morrer” e obteve entusiásticos elogios do cronista Stanislaw Ponte Preta.
Em 1966, voltou a São Paulo para trabalhar na revista Realidade, da Editora Abril. Em suas muitas matérias, abordou, entre outros assuntos, a importância do futebol para o brasileiro e a precariedade da vida da maioria dos futebolistas (o tipo de reportagem que não se faz hoje em dia, quando nossa imprensa vendida só fala dos milionários da bola).


Em 1968, voltou definitivamente ao Rio onde trabalhou na revista Manchete. Em 1970, passou três meses internado no sanatório da Muda e, com base nessa experiência, escreveu o texto “Casa de Loucos”, que viria a ser publicado em 1976. Trabalhou em O Globo, Diário de Notícias, Pasquim...
Escreveu ainda vários bons livros como: “Leão de Chácara”, “Malhação do Judas Carioca” (1975), “Ô Copacabana!” (1978), “Dedo-duro” (1982), “Abraçado ao meu rancor” (1986), “Zicartola e que tudo mais vá pro inferno” (1991) e outros.

Morreu no ano de 1996 em seu apartamento próximo à Praça Serzedelo Correia em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, adotada como sua na literatura e na vida.

domingo, 4 de maio de 2014

Crianças recebem lição contra o consumismo

Escolas colocam no currículo aulas que estimulam o consumo sustentável

(por: Stephanie Tondo)

Rio - O consumo desenfreado é uma das principais características da sociedade atual, que ainda busca na aquisição de bens uma espécie de realização pessoal. O problema é que essa cultura é transmitida às crianças e, se esse pensamento se perpetuar, é possível que não haja recursos naturais suficientes num futuro próximo. Em meio a este cenário, as escolas têm o importante papel de conscientizar os pequenos para os riscos do consumismo.


A pequena Camila Alcântara escolhe boneca em loja. (Foto:  Maíra Coelho / Agência O Dia)
Instituições de ensino públicas e privadas já incluíram no seu currículo ou nas atividades extraclasse aulas e projetos sobre sustentabilidade e consumo responsável. “Cada vez mais as escolas trabalham com esses temas e conscientizam os alunos que, por sua vez, educam os pais”, explica Edgar Flexa Ribeiro, presidente do Sindicato dos Estabecimentos de Educação Básica do Município do Rio (Sinepe).

O Mopi, por exemplo, adotou práticas diárias, como a substituição de copos plásticos descartáveis por garrafinhas que são distribuídas no início do ano. Já a Escola Parque tem um Plano de Metas Sustentáveis, que propõe o aproveitamento de alimentos da horta e do pomar da escola no lanche dos alunos, e estimula o uso da carona, entre outros.

No Ciep Francisco Cavalcante Pontes de Miranda, em Campo Grande, os alunos criam codornas e cuidam de duas hortas. O professor Lúcio Teixeira, de técnicas agrícolas, diz que o objetivo do projeto é mostrar às crianças que não é preciso comprar alimentos industrializados.

“A ideia é que eles percebam que podem produzir algumas coisas em casa, sem recorrer ao supermercado. Além de ser saudável, é mais gostoso”, afirma o professor.

Já no Colégio Estadual Pandiá Calógeras, em São Gonçalo, o professor de biologia Ricardo Harduim implementou o programa Educação e Mudanças Climáticas, com o projeto Carbono Zero. Para cada tonelada de carbono emitida pela escola na atmosfera, cinco árvores são plantadas pelos alunos.

“Cada um deve se sentir responsável pelos efeitos das suas ações na natureza. O desperdício de comida, por exemplo, é muito prejudicial ao meio ambiente, pois o lixo orgânico aquece 21 vezes mais que gás carbônico. Andar de carro e consumir energia elétrica em exagero também contribuem para a poluição atmosférica”, conta Harduim.

O consultor ambiental Alessandro Azzoni reforça que o consumismo é o principal fator de degradação do meio ambiente. “As pessoas devem começar a consumir somente aquilo que necessitam”, alerta ele.


Publicidade infantil é vista como vilã 

A publicidade infantil é vista por muitos como a principal responsável por estimular a cultura do consumo nas crianças. “Ninguém nasce consumista”, afirma a psicóloga Laís Fontenelle, do Instituto Alana. “Até os 12 anos, os pequenos não têm capacidade crítica para lidar com a persuasão, por isso acreditam nas propagandas mais facilmente”.

O consultor ambiental Alessandro Azzoni concorda. “A juventude não tem um parâmetro de saber onde parar, porque sempre é lançado algo novo. Há uma necessidade de compra imposta pelos meios de comunicação”, argumenta.

Por isso, cabe às famílias e escolas transmitir às crianças valores sustentáveis. “Famílias que estimulam o materialismo e escolas que incentivam a competitividade contribuem para jovens consumistas”, alerta Laís. Para ela, a melhor forma de educar é dando o exemplo. “A coerência é a melhor ferramenta para a transformação. Não adianta a mãe proibir o filho de comprar um brinquedo e sair do shopping com várias sacolas de roupas para ela”, explica a psicóloga.


ATITUDES SUSTENTÁVEIS

QUERO OU PRECISO? 
Antes de atender ao pedido dos filhos para comprar algo no supermercado ou loja de brinquedos, os pais devem perguntar às crianças se o produto é mesmo necessário. Uma alternativa para não frustrar os pequenos é combinar antes de sair de casa o que será comprado.

LANCHES SAUDÁVEIS 
Alimentos industrializados, além de ser pouco saudáveis, geram muitos resíduos, em função das embalagens. Por isso, o ideal é estimular as crianças a comerem lanches naturais, como frutas, sanduíches e sucos. Para guardar, use potes plásticos, em vez de papel alumínio.

TROCA DE BRINQUEDOS 
Crianças enjoam facilmente dos brinquedos, por isso, é importante estimular os pequenos a trocar com os amigos. Assim, todos têm sempre novidades, sem precisar comprar. A ideia também vale para roupas e livros, entre outros.

DOAÇÕES 
Se os pais quiserem presentear os filhos com brinquedos ou roupas novas, vale a pena entrar em um acordo para que um objeto antigo seja doado. Desta forma, o armário fica livre de artigos guardados sem utilidade e as crianças ainda aprendem a ser solidárias, desapegadas e menos egoístas.

LAZER AO AR LIVRE 
Muitas crianças ligam diversão a gastar dinheiro, já que na maior parte das vezes o lazer acontece nos shoppings centers. Assim, cabe aos pais oferecer alternativas gratuitas e divertidas, como passeio no parque, trilhas, idas à praia ou cachoeira e brincadeiras na praça.

REUTILIZAÇÃO 
Com criatividade, muitas embalagens podem ser reaproveitadas para fazer brinquedos. Basta pedir para os pequenos usarem a imaginação. Além disso, os pais devem ensinar os filhos a separar o lixo reciclável antes de descartá-lo. A criança reproduzirá essa ação no futuro.

(Retirado de: http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2014-05-03/criancas-recebem-licao-contra-o-consumismo.html.)