sexta-feira, 20 de junho de 2014

João Antônio – uma literatura atracada na vida

(por: W. Bastos)


João Antônio Ferreira Filho, o escritor conhecido apenas como João Antônio, nasceu 27/01/1937 na capital paulista – filho dum português de Trás-os-Montes (de quem herdou o nome) e da mestiça carioca Irene Gomes Ferreira.
Seu pai era bom tocador de bandolim e amigo de grandes músicos como Garoto e Geraldo Ribeiro da Silva.
João Antônio, o filho, passou a infância no bairro Presidente Altino. Quando o menino estava com cinco anos de idade, seu pai (então funcionário do Frigorífico Armour) resolveu comprar um armazém daqueles que vendiam de tudo. O estabelecimento ficava na Rua Caiowaa, no bairro Pompeia, atrás do campo do Palmeiras. Lá o futuro escritor começou a ver com mais atenção a miséria do povo que viria, mais tarde, habitar sua literatura.
Em 1951, a família se mudou para Vila Jaguara. O pai comprou uma vendinha e depois uma pedreira. E, com este negócio da pedreira, acabou tendo enorme prejuízo e perdendo tudo que tinha até aquele momento.
Em 1953, eles vão para Vila Anastácio. Lá o jovem João Antônio trabalha como contínuo e, à noite, estuda no Colégio Campos Sales, no bairro paulista da Lapa. Começa a namorar, escrever e ler bastante. Aos sábados, pega a bicicleta e, levando escritos seus, vai ao bairro Moema, onde o gaúcho Homero Mazarém Brum patrocina a publicação de um jornalzinho chamado O Crisol.
Nessa mesma época, conhece prostíbulos, botequins, a boêmia e os malandros da noite (meio que seria frequente em sua literatura). Aos 16 anos é surpreendido jogando sinuca. O dono do bar leva uma multa violenta. João Antônio toma uma bronca do pai, que lhe diz: “Você tem todos os vícios que eu conheço e até os que eu não conheço”.


Depois do emprego de contínuo, ele vai trabalhar no Frigorífico Armour (como o pai fizera antes). Em seguida trabalha como bancário na Lapa, depois na redação duma agência de publicidade no centro de São Paulo.
Termina o curso normal e vai fazer Jornalismo na Escola Cásper Líbero. Aliás, quando começou o curso ele já tinha escrito vários contos curtos para o jornal O Tempo. Por essa época, ganha um concurso de contos promovido pela revista A Cigarra. O curioso é que a narrativa vencedora é “Fujie”, mas o texto que acaba sendo publicado é outro também de sua autoria, chamado “Frio”. É que, apesar de reconhecerem o inestimável valor literário de “Fujie”, consideraram-no – pela sensualidade da narrativa – inadequado para uma “revista de famílias” como A Cigarra.
Depois disso João Antônio ganha concursos literários do jornal Tribuna da Imprensa (com o excelente conto “Meninão do Caixote”) e do periódico Última Hora (com “Natal na Cafua”).
No fim da década de 50, muda-se para o bairro Jaguaré. Lá, na sexta-feira 12 de agosto de 1960, um incêndio destrói toda a casa da família. Queimam-se todos os textos que João Antônio havia escrito, inclusive os originais de sua principal criação: “Malagueta, Perus e Bacanaço”. O estrago só não foi maior porque alguns contos ali contidos já haviam sido publicados em jornais e revistas literárias.
Mesmo assim é um choque para um escritor perder qualquer trecho de sua obra. O pai disse a ele na ocasião: “Pobre tem que fazer tudo duas vezes, e muito bem feito, se não quiser fazer outra vez”.
Assim, Mário da Silva Brito conseguiu uma autorização para João Antônio usar com privacidade e conforto a cabine 27 da Biblioteca Municipal Mario de Andrade, onde ele pôde reescrever aquele que ficou conhecido como seu mais importante livro: “Malagueta, Perus e Bacanaço”. Este veio a ser lançado em 1963 pela Editora Civilização Brasileira.


Em 1964, João Antônio foi morar na cidade do Rio de Janeiro, pela qual logo se apaixonou. Começou a trabalhar no Jornal do Brasil. Escreveu uma série de reportagens sobre o declínio da vida boêmia da Lapa carioca. Esse texto recebeu o título “A Lapa acordada para morrer” e obteve entusiásticos elogios do cronista Stanislaw Ponte Preta.
Em 1966, voltou a São Paulo para trabalhar na revista Realidade, da Editora Abril. Em suas muitas matérias, abordou, entre outros assuntos, a importância do futebol para o brasileiro e a precariedade da vida da maioria dos futebolistas (o tipo de reportagem que não se faz hoje em dia, quando nossa imprensa vendida só fala dos milionários da bola).


Em 1968, voltou definitivamente ao Rio onde trabalhou na revista Manchete. Em 1970, passou três meses internado no sanatório da Muda e, com base nessa experiência, escreveu o texto “Casa de Loucos”, que viria a ser publicado em 1976. Trabalhou em O Globo, Diário de Notícias, Pasquim...
Escreveu ainda vários bons livros como: “Leão de Chácara”, “Malhação do Judas Carioca” (1975), “Ô Copacabana!” (1978), “Dedo-duro” (1982), “Abraçado ao meu rancor” (1986), “Zicartola e que tudo mais vá pro inferno” (1991) e outros.

Morreu no ano de 1996 em seu apartamento próximo à Praça Serzedelo Correia em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, adotada como sua na literatura e na vida.

domingo, 4 de maio de 2014

Crianças recebem lição contra o consumismo

Escolas colocam no currículo aulas que estimulam o consumo sustentável

(por: Stephanie Tondo)

Rio - O consumo desenfreado é uma das principais características da sociedade atual, que ainda busca na aquisição de bens uma espécie de realização pessoal. O problema é que essa cultura é transmitida às crianças e, se esse pensamento se perpetuar, é possível que não haja recursos naturais suficientes num futuro próximo. Em meio a este cenário, as escolas têm o importante papel de conscientizar os pequenos para os riscos do consumismo.


A pequena Camila Alcântara escolhe boneca em loja. (Foto:  Maíra Coelho / Agência O Dia)
Instituições de ensino públicas e privadas já incluíram no seu currículo ou nas atividades extraclasse aulas e projetos sobre sustentabilidade e consumo responsável. “Cada vez mais as escolas trabalham com esses temas e conscientizam os alunos que, por sua vez, educam os pais”, explica Edgar Flexa Ribeiro, presidente do Sindicato dos Estabecimentos de Educação Básica do Município do Rio (Sinepe).

O Mopi, por exemplo, adotou práticas diárias, como a substituição de copos plásticos descartáveis por garrafinhas que são distribuídas no início do ano. Já a Escola Parque tem um Plano de Metas Sustentáveis, que propõe o aproveitamento de alimentos da horta e do pomar da escola no lanche dos alunos, e estimula o uso da carona, entre outros.

No Ciep Francisco Cavalcante Pontes de Miranda, em Campo Grande, os alunos criam codornas e cuidam de duas hortas. O professor Lúcio Teixeira, de técnicas agrícolas, diz que o objetivo do projeto é mostrar às crianças que não é preciso comprar alimentos industrializados.

“A ideia é que eles percebam que podem produzir algumas coisas em casa, sem recorrer ao supermercado. Além de ser saudável, é mais gostoso”, afirma o professor.

Já no Colégio Estadual Pandiá Calógeras, em São Gonçalo, o professor de biologia Ricardo Harduim implementou o programa Educação e Mudanças Climáticas, com o projeto Carbono Zero. Para cada tonelada de carbono emitida pela escola na atmosfera, cinco árvores são plantadas pelos alunos.

“Cada um deve se sentir responsável pelos efeitos das suas ações na natureza. O desperdício de comida, por exemplo, é muito prejudicial ao meio ambiente, pois o lixo orgânico aquece 21 vezes mais que gás carbônico. Andar de carro e consumir energia elétrica em exagero também contribuem para a poluição atmosférica”, conta Harduim.

O consultor ambiental Alessandro Azzoni reforça que o consumismo é o principal fator de degradação do meio ambiente. “As pessoas devem começar a consumir somente aquilo que necessitam”, alerta ele.


Publicidade infantil é vista como vilã 

A publicidade infantil é vista por muitos como a principal responsável por estimular a cultura do consumo nas crianças. “Ninguém nasce consumista”, afirma a psicóloga Laís Fontenelle, do Instituto Alana. “Até os 12 anos, os pequenos não têm capacidade crítica para lidar com a persuasão, por isso acreditam nas propagandas mais facilmente”.

O consultor ambiental Alessandro Azzoni concorda. “A juventude não tem um parâmetro de saber onde parar, porque sempre é lançado algo novo. Há uma necessidade de compra imposta pelos meios de comunicação”, argumenta.

Por isso, cabe às famílias e escolas transmitir às crianças valores sustentáveis. “Famílias que estimulam o materialismo e escolas que incentivam a competitividade contribuem para jovens consumistas”, alerta Laís. Para ela, a melhor forma de educar é dando o exemplo. “A coerência é a melhor ferramenta para a transformação. Não adianta a mãe proibir o filho de comprar um brinquedo e sair do shopping com várias sacolas de roupas para ela”, explica a psicóloga.


ATITUDES SUSTENTÁVEIS

QUERO OU PRECISO? 
Antes de atender ao pedido dos filhos para comprar algo no supermercado ou loja de brinquedos, os pais devem perguntar às crianças se o produto é mesmo necessário. Uma alternativa para não frustrar os pequenos é combinar antes de sair de casa o que será comprado.

LANCHES SAUDÁVEIS 
Alimentos industrializados, além de ser pouco saudáveis, geram muitos resíduos, em função das embalagens. Por isso, o ideal é estimular as crianças a comerem lanches naturais, como frutas, sanduíches e sucos. Para guardar, use potes plásticos, em vez de papel alumínio.

TROCA DE BRINQUEDOS 
Crianças enjoam facilmente dos brinquedos, por isso, é importante estimular os pequenos a trocar com os amigos. Assim, todos têm sempre novidades, sem precisar comprar. A ideia também vale para roupas e livros, entre outros.

DOAÇÕES 
Se os pais quiserem presentear os filhos com brinquedos ou roupas novas, vale a pena entrar em um acordo para que um objeto antigo seja doado. Desta forma, o armário fica livre de artigos guardados sem utilidade e as crianças ainda aprendem a ser solidárias, desapegadas e menos egoístas.

LAZER AO AR LIVRE 
Muitas crianças ligam diversão a gastar dinheiro, já que na maior parte das vezes o lazer acontece nos shoppings centers. Assim, cabe aos pais oferecer alternativas gratuitas e divertidas, como passeio no parque, trilhas, idas à praia ou cachoeira e brincadeiras na praça.

REUTILIZAÇÃO 
Com criatividade, muitas embalagens podem ser reaproveitadas para fazer brinquedos. Basta pedir para os pequenos usarem a imaginação. Além disso, os pais devem ensinar os filhos a separar o lixo reciclável antes de descartá-lo. A criança reproduzirá essa ação no futuro.

(Retirado de: http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2014-05-03/criancas-recebem-licao-contra-o-consumismo.html.)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os Mamutes: hambúrguer de carne humana em cartaz

(por: W. Bastos)

“Os Mamutes” é teatro genuíno. Isso, em si, não deveria se constituir num elogio. Afinal, toda peça teatral deveria, por definição, ser teatro, ora essa. Mas o fato é que hoje os palcos brasileiros foram invadidos por stand up comedies (que nada têm de dramaturgia), por besteiróis televisivos, bem como por monólogos egocêntricos em que artistas narram sua própria “trajetória de vida”...

Em “Os Mamutes” a narração é outra. Completamente ficcional, ela transmite uma verdade bem maior através dos olhos da personagem Isadora Faca no Peito, menina perversa e inteligente, que, trancada em seu quarto, escreve a história de Leon – rapaz honesto,  criado pela avó com base em valores cristãos, que precisa dum emprego para sustentá-los. Ele tenta uma vaga para trabalhar na Mamute's Food, um fast food que vende hambúrguer de carne humana. Para conseguir o cargo, precisa matar um mamute – tipo de pessoa considerada sub-humana por ser fútil, consumista e desprovida de valores éticos. O que fazer: ficar desempregado, sem sustento para si e para a família, sendo julgado um fracasso aos olhos de todos? Ou assassinar um ser humano, por pior que ele seja, e carregar essa culpa, entrando, porém, para o sistema, conquistando um emprego, mas com risco de se tornar também um mamute?


A peça foi escrita por Jô Bilac e está fazendo um circuito de sucesso numa montagem da Cia. Omondé. Estreou na Arena do Espaço SESC (Copacabana, RJ) em março de 2012. Depois disso emendou temporadas no Teatro Café Pequeno (Leblon, RJ), participou do Festival de Inverno do SESC Rio, FITA, entre outros festivais. Em 2013, com a Turnê BR, cumpriu curtas temporadas em cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, tendo sido em Niterói a última encenação da turnê já agora em 2014. Em abril deste ano, “Os Mamutes” fará quatro apresentações no Teatro da Caixa Cultural de Curitiba. Mas vale a pena pesquisar em quais outros cantos eles estarão. Devem ainda rodar bastante por aí, já que, felizmente, a peça tem agradado muito.

A direção é de Inez Viana e elenco, formado por Débora Lamm, Cristina Flores, Carolina Pismel, Ricardo Souzedo, Diogo Camargos, Luiz Antonio Fortes, Jefferson Schroeder, Iano Salomão, Zé Wendell, Junior Dantas e Juliane Bodini. Vencedor do Festival Internacional de Teatro de Angra dos Reis (FITA 2012) nas categorias Melhor Direção, Melhor Atriz Protagonista (Debora Lamm) e Melhor Figurino (Flavio Souza).


Na equipe técnica, destacam-se as participações de Marcelo Alonso Neves (direção musical) e dos músicos Aline Gonçalves, Chico Werneck e Felipe Antello. Cenografia a cargo de Nello Marrese e iluminação de Renato Machado.

A peça desfila personagens surpreendentes e marcantes como: Capitão Man (que surge em cena sempre patinando); dois gêmeos siameses figurões da Mamute’s Food;  Frenesi, a insinuante puta revolucionária; Squel, a jovem que sonha em morrer e se transformar em chuva; Lola Blair, o transformista militante, e Shiva Moon, a apresentadora de programa infantil propagandista da Mamute’s.

Repleto duma comicidade ácida e questionadora, o texto de Jô Bilac nos faz repensar a vida e os valores em que sociedade de consumo nos mergulha sem que nos demos conta. Será se estamos perdendo nossa humanidade? A quem interessa que nos tornemos “mamutes”? Ao aderirmos ao consumismo, estaríamos também virando objetos de consumo?

A obra teatral em questão não nos traz soluções. Antes zomba das respostas fáceis e, através de um humor negro bastante perturbador, nos bota para pensar. E essa não é, afinal, a grande missão da arte?

sábado, 21 de dezembro de 2013

Mais um inusitado lançamento de Arnaldo Antunes

(por: W. Bastos)

– Você já ouviu o Disco do Arnaldo Antunes?
– Qual?
– Disco.
O estranho diálogo acima deve estar se repetindo em vários cantos do país, fomentado pelo fato de o novo CD do ex-integrante dos Titãs se chamar justamente: Disco. Mas isso não é surpreendente para quem acompanha a trajetória do artista, que iniciou sua carreira solo em 1993 com um disco cujo nome é... Nome. A este se seguiram Ninguém (1995), O Silêncio (1996), Um Som (1998), Paradeiro (2001), Saiba (2004), Qualquer (2006), Ao Vivo no Estúdio (2007), Iê, Iê, Iê (2009), Ao Vivo lá em Casa (2010) e Acústico MTV (2012).


Neste Disco encontramos 15 faixas inéditas, umas mais agitadas, outras mais lentas. Não é à toa que a ideia inicial era que o CD se chamasse “Bipolar” (e fosse lançado em 2014, incluindo mais músicas pesadas para contrastar com as baladinhas). A imagem da bipolaridade se manteve no novo título, que nos remete aos antigos discos de vinil, apresentando sempre duas faces (os habituais lados A e B).


Vivemos uma época em que a maioria das pessoas acessa e ouve músicas isoladas: baixa só as que prefere, pela rede mundial de computadores. Se, por um lado, o acesso às músicas aumentou; por outro, a fruição – o deleite estético proveniente da audição de cada uma – se tornou mais superficial também, pela canção ser descolada do conjunto das outras que, com ela, integram uma composição artística mais completa, qual seja: o disco.


Mas se engana quem pensar que este lançamento de Arnaldo Antunes seja um libelo contra a nova forma de curtir músicas propiciada pela internet. O que ele parece querer é simplesmente problematizar, fazer a gente refletir um pouco sobre esse novo modo de chegar às músicas, que também traz muito de positivo. Aliás, antes de o disco sair, Arnaldo foi lançando e disponibilizando as canções pela internet, uma por mês, ao longo de quatro meses, enquanto ia produzindo outras em estúdio.


No final das contas, mesmo sem ser o melhor do artista, o CD ficou bom do início ao fim. Conta com a participação dos músicos Betão Aguiar, Chico Salém, Curumim, Edgard Escandurra e Marcelo Jeneci (sendo essa a formação da banda de Arnaldo já há quatro anos). Começa com a calminha e bastante poética “O Fogo”, composta em parceria com João Donato. A ela se segue a excelente “Muito muito pouco”, roque com crítica social reflexiva, inteligente e longe do panfletário, iniciando com uma estrofe impactante: “tem muito carro e muito pouco chão/ tem muita gente e muito pouco pão/ tem muito papo e muito pouca ação/ muito parente e muito pouco irmão”.  Depois vem uma bela canção assinada por Arnaldo, Marisa Monte (ex-parceira na banda Tribalistas) e Dadi Carvalho, um dos pontos altos do CD: “Dizem (quem me dera)”, que certamente será um dos hits. E vão se seguindo mais e mais boas músicas, que cada um deve ouvir e julgar por si mesmo. Gostaria de destacar a divertida “Ela é tarja preta”, a irônica “Ah, mais assim vai ser difícil”, e a contestatória “Querem mandar”, que tem versos bem apropriados para este ano o ano de 2013, que desde junho, com protestos contínuos, tem sido bastante inconformista em relação aos donos do poder e seus desmandos: “enchendo cofres com dinheiro dos pobres/ espalham medo com impulsos de morte/ e querem bem mais/ querem mandar/ a gente não vai aceitar/ nem entrar nessa/ a gente não vai entregar/ o que interessa...”


A gente não precisa mesmo aceitar tudo que nos impõem, nem na política, nem na cultura. Que tal sair da mesmice e incorporar Arnaldo Antunes à sua discoteca?

domingo, 20 de outubro de 2013

Fiocruz Atravessou a Rua – Abbey Road Manguinhos

(por: Joyce Enzler)

Ato contra a prisão do pesquisador Paulo Bruno
Nesta quinta, 17 de outubro, a Fiocruz realizou ato em repúdio a prisão do professor e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), Paulo Roberto de Abreu Bruno, no dia 15 de outubro, na manifestação dos professores. O diretor da Ensp, Hermano Castro, disse para um auditório lotado que a Escola paralisará suas atividades até o pesquisador ser solto. “Não se pode prender um cidadão por estar se manifestando”, disse.

O presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, ressaltou que Paulo Bruno realiza pesquisa em consonância com a história da Fundação. “Essa casa sempre foi aliada dos movimentos sociais. Não há dúvida sobre a legitimidade da Fiocruz e dos seus profissionais”, falou Gadelha. Eduardo Stotz, professor, pesquisador e coordenador do Fórum de Articulação da Ensp com os Movimentos Sociais explicou que Paulo Bruno é integrante deste Fórum, que foi criado alguns dias antes do começo das manifestações de junho deste ano, e estava registrando estas atividades para pesquisa sobre movimentos populares urbanos, produzida na Ensp.

O ex-ministro da Saúde e senador Humberto Costa esteve no ato e disse estar à disposição para se somar a estas vozes. Alex Molinario, vice-diretor em Desenvolvimento Institucional e Gestão (VDDIG), falou que todos devem se posicionar e se manifestar contra qualquer injustiça cometida pelo Estado: “A livre expressão é um direito do cidadão e não somente da mídia”.

Enquanto acontecia, na Fiocruz, ato contra a arbitrariedade policial, lá fora, Manguinhos voltava a ser um território em guerra. Cerca de 40 jovens, revoltados após a morte do rapaz de 17 anos, também chamado Paulo, jogaram pedras na polícia que revidou com tiros e bombas, segundo vários moradores. Da Fundação, todos ouviam o barulho assustados. Na rua, uma jovem de 17 anos foi baleada na perna. Então, um ato se interliga no outro como que para reacender nesta Fundação todo o seu passado de luta ao lado dos movimentos populares. Monique Cruz, moradora e militante do Fórum Social de Manguinhos, entrou no auditório e colocou todos a par do que acontecia do lado de fora dos muros.

Monique contou que Manguinhos estava uma praça de guerra e que a população ficou revoltada com a morte do rapaz após ser abordado pela polícia, num beco da favela. “Peço a solidariedade desta casa. Está na hora de unificar as lutas”, disse. A Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz (Asfoc SN), Justa Helena Franco falou que a morte do rapaz a diminuiu porque faz parte da raça humana. Além do relato, Monique relembrou outros casos de violência policial contra moradores de Manguinhos, que, como qualquer favela, tem um pouco de navio negreiro. E como se o gigante acordasse, foi tirada uma comissão da Fiocruz para negociar o fim dos ataques aos moradores.

Paulo Gadelha, Hermano Castro, Carla Moura do Fórum de Articulação da Ensp com os Movimentos Sociais, os representantes da Asfoc, Justa Franco e Alexandre Pessoa e mais Pedro Teixeira, Marcus Vinicius Giraldes, Francisco de Abreu Franco e Paula Ávila de Oliveira atravessaram a rua em direção à favela. Este gesto tão simbólico quanto à foto da capa do LP dos Beatles, Abbey Road, diz muito.

A Comissão se encontrou com algumas lideranças comunitárias. Após a conversa, o presidente da Fiocruz negociou o término da guerra com o Capitão Toledo. As bombas cessaram. Choveu muito. Como se lavasse tudo de ruim que aconteceu, hoje, ontem, há 500 anos.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cine Joia, Juan e a bailarina

(por: W. Bastos)

Hoje em dia é difícil ver um bom filme no cinema, pois bons filmes não surgem toda hora e bons cinemas fecham suas portas a todo momento. O que tem de sobra por aí são salas careiras em shopping centers, exibindo fitas idiotas. Mas aí uns amigos me deram a dica dum cinematógrafo porreta.


Animado com a ideia de desfrutar novamente o prazer de curtir a sétima arte, tomei um ônibus e segui para o indicado Cine Joia. Este se localiza na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 680, no bairro Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se duma simpática salinha de cinema, com capacidade para 87 pessoas, no subsolo de uma pequena galeria comercial. É reduto dos apreciadores de filmes artísticos, nacionais e internacionais, clássicos, independentes e alternativos ao circuito comercial cinematográfico. As poltronas são confortáveis, mas sem aquele exagero luxuoso que, nos modernos cinemas, fazem a gente assistir aos filmes quase deitado (o que, aliás, é péssimo pra coluna). Estilosos, os assentos têm cores diferentes que vão se alternando. A decoração meio retrô nos remete à época em que era moleza encontrar cinemas de rua, aos quais se podia ir sem a obrigação de reservar o ingresso previamente.



No horário em que cheguei, iria começar a sessão de “Juan e a Bailarina” (La Sublevación). O filme é um drama, com toques humorísticos, realizado numa parceria Brasil-Argentina, com direção de Raphael Aguinaga. Nos 95min de exibição, o espectador é apesentado a um grupo eclético de idosos habitantes de um asilo decadente cuja rotina é abalada pela notícia de a Igreja Católica ter clonado Jesus. A essa informação, que recebem via tevê, se soma a chegada de uma nova moradora abandonada pela família. E, como se não bastasse, o cotidiano dos velhinhos se tumultua ainda mais pela entrada de férias da enfermeira responsável pelo asilo, a qual deixa o filho na gerência do lugar durante sua ausência.

O filho da enfermeira, ao assumir a gestão provisória do local, submete os idosos a uma sérire de opressões. Enquanto os moradores do asilo lutam contra ele, terão que juntar forças e superar limitações físicas para saírem à procura da cura da AIDS, visando com isso salvar Jesus, agora infectado pelo vírus HIV (!). Nessa jornada, precisarão enfrentar seus medos, mas fortes amizades vão se estabelecer, mostrando que é justamente entre os mais fragilizados que a solidariedade se faz imprescindível.


O único senão sobre o prazer de assistir à obra em telas brasileiras está na lamentável tradução do título. La Sublevación deveria ser traduzido como “O Levante” (ou até mesmo “A Sublevação”). De forma alguma se justifica chamá-lo “Juan e a Bailarina”, não só pelo fato de não corresponder ao sentido do título em espanhol, mas também pelo personagem Juan não ser assim tão central na história, além de nela não haver propriamente uma “bailarina”, mas apenas breves cenas de dança envolvendo a novata no asilo (e as lembranças da falecida mulher de Juan).



Bem, apesar de eu me “sublevar” contra essa escolha dos tradutores brasileiros, é fato que “Juan e a Bailarina” é um programão. E o Cine Joia também, pois, no geral, os filmes lá exibidos valem muito a pena. Quem estiver em terras cariocas não deixe de conhecer.

O horário de funcionamento é das 12h às 22h30min (exceto segunda-feira, quando permanece fechado). Os telefones são: (21) 2236-5671 e 2236-5624. A programação completa pode ser conferida em: http://cinejoia.wordpress.com.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Por que nunca entrei no Facebook

(por: Eugênio Bucci)

Eugênio Bucci é professor da
ECA-USP
Foto: Camila Fontana
– Não, não estou no Facebook.

Quando a gente diz isso numa roda, num jantar ou num ponto de ônibus, a conversa silencia. Olhares incrédulos saltam sobre nossa figura tímida, como luzes de otorrinolaringologistas do futuro, tentando investigar nossas limitações ocultas. Analfabetismo digital? Conservadorismo? Alguém arrisca um “em que planeta você vive?”. Outro sente pena e tenta ser simpático: “Até minha avó está no Face, é tão friendly”.

Aí, vem aquela voz categórica, que procura dar o sinal definitivo dos tempos: “Minha filha já nem usa mais e-mail. Com ela, é tudo pelo Facebook”. É assim que os 46,3 milhões de brasileiros que mantêm um perfil pessoal na maior rede social do planeta tratam os outros, os que estão de fora. Fazem ar de espanto. Fazem chiste, bullying, assédio moral.

E não obstante:

– Não, não estou no Facebook.

E acho que tenho razão. Errados estão os 845 milhões de viventes que, em todas as línguas, em todos os países, puseram lá suas fotografias (tem gente sem camisa!) ao lado de seus depoimentos confessionais. Viventes e morrentes, é bom saber. Há poucas semanas, o escritor Humberto Werneck, em sua coluna dominical no jornal O Estado de S. Paulo, registrou um dado um tanto mórbido. Quando um sujeito morre – isso acontece –, o perfil do defunto fica lá, intacto. O perfil do morto não entra em putrefação, nem vai para debaixo da tela. Os outros usuários, estes vivos, mas desavisados, podem “curtir” até cansar. O perfil não se mexe nem sai de cena. Não há coveiros digitais no tempo real. De todo modo, como não frequento isso que Werneck chamou de “cemitério virtual”, não posso saber como é. Apenas presumo que deva ser aflitivo. Também por isso, ali não entro nem morto.

Errados estão os 845 milhões de viventes que, em todas as línguas, puseram lá suas fotografias.
  
A fonte da minha resistência, contudo, não está nessa situação terrível, não da morte em vida, mas da vida em morte a que a grande rede pode nos sentenciar. Também não está nas fotos de gente sem camisa. A evasão de intimidades em que estamos submersos é a regra totalitária. Até mesmo a fé – algo ainda mais íntimo que o sexo – ganhou estatuto de espetáculo nas telas eletrônicas, e a transcendência do espírito se converteu em explicitude obscena. Entre o lúbrico e o religioso, não é o festival abrasivo nauseante de intimidades que me mantém distante. Não é também a frivolidade.

O que mais me afasta desse tipo de rede social é o comércio. Nada contra as feiras livres, que, em qualquer lugar, em qualquer tempo, concentram as mais autênticas vibrações da cultura (a melhor porta de entrada para o viajante que quer conhecer uma cidade é a feira livre). Agora, o comércio no Facebook é outra história. Ele é ainda mais funéreo que a presença dos clientes mortos que não pagam nem arredam pé. Ali, a mercadoria é o freguês, o que vai ficando cada dia mais evidente, com denúncias crescentes sobre o uso de informações pessoais mercadejadas pelos administradores do site. Ali dentro, as mais exibicionistas intimidades adquirem um sinistro valor de troca para as mais intrincadas estratégias mercadológicas.

Já no tempo do Orkut – no qual também nunca pus os pés, ou os dedos, ou os dígitos – esse fantasma existia. Hoje, no Facebook, o velho fantasma é corpóreo, material, indisfarçável em seu jogo desigual. O usuário alimenta o usurário – com seu próprio trabalho, não remunerado. Clicando “curti” para lá e para cá, o freguês fabrica alegremente o “database marketing” que o vende sem que ele saiba. Estou fora. Muito obrigado.

Desconfio que esse padrão de relacionamento não é leal e não vai tão longe quanto promete. Não se mantiver o mesmo modelo. Mesmo como negócio, o Face dá sinais de ter batido no teto. A empresa abriu seu capital há menos de um mês e, desde então, as ações despencam. Já perderam mais de 24% de seu valor. Nesse período, o fundador e presidente executivo, Mark Zuckerberg, ficou US$ 4,7 bilhões mais pobre. O Facebook precisa mudar – e, por enquanto, mudará sem minha ajuda, sem meu trabalho gratuito. Seguirei com meu cômodo bordão:

– Não, não tenho Facebook.

Dá para viver sem. Se me acusarem de dinossauro lamuriento, posso me defender. Tenho celular e sei operar controle remoto de televisão. Uso o Google, mas com um pé ressabiado bem atrás. Sabia fazer download de planilha Excel, mas esqueci. A tecnologia nos engolfa, eu bem sei, e não há como ficar de fora. Mas uma coisinha ou outra a gente ainda pode escolher. Um “não” ou outro, a gente ainda pode dizer.

– Não, não estou no Facebook.

(ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA ÉPOCA Nº 734, DE 11 DE JUNHO DE 2012)