sexta-feira, 28 de agosto de 2015


Conheça dez histórias de corrupção durante a ditadura militar

(por: Marcelo Freire)



  • Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964 Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964
Os protestos de 15 de março, direcionados principalmente contra o governo federal e a presidente Dilma Rousseff, indicaram a insatisfação de parte da população com os casos de corrupção envolvendo partidos políticos, empresas públicas e empresas privadas. Algumas pessoas, inclusive, chegaram a pedir uma intervenção militar, alegando que essa seria a solução para o fim da corrupção.

Mas será que nesse período a corrupção realmente não fazia parte da esfera política? Apesar da blindagem proporcionada pelas restrições ao Legislativo, Judiciário e imprensa, ainda assim a ditadura não passou imune a diversas denúncias de corrupção.

O UOL listou dez delas, tendo como fonte a série de quatro livros de Elio Gaspari sobre o período ("A Ditadura Envergonhada", "A Ditadura Escancarada", "A Ditadura Derrotada" e "A Ditadura Encurralada") e reportagens da época. O primeiro item que envolve Delfim Netto contém uma resposta do ex-ministro sobre os casos. Veja:

 

1 - Contrabando na Polícia do Exército

A partir de 1970, dentro da 1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, sargentos, capitães e cabos começaram a se relacionar com o contrabando carioca. O capitão Aílton Guimarães Jorge, que já havia recebido a honra da Medalha do Pacificador pelo combate à guerrilha, era um dos integrantes da quadrilha que comercializava ilegalmente caixas de uísques, perfumes e roupas de luxo, inclusive roubando a carga de outros contrabandistas. Os militares escoltavam e intermediavam negócios dos contraventores. Foram presos pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) e torturados, mas acabaram inocentados porque os depoimentos foram colhidos com uso de violência – direito de que os civis não dispunham em seus processos na época. O capitão Guimarães, posteriormente, deixaria o Exército para virar um dos principais nomes do jogo do bicho no Rio, ganhando fama também no meio do samba carioca. Foi patrono da Vila Isabel e presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).

 

2 - A vida dupla do delegado Fleury


Folhapress
Sérgio Paranhos Fleury

Um dos nomes mais conhecidos da repressão, atuando na captura, na tortura e no assassinato de presos políticos, o delegado paulista Sérgio Fernandes Paranhos Fleury foi acusado pelo Ministério Público de associação ao tráfico de drogas e extermínios. Apontado como líder do Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que cometia execuções, Fleury também era ligado a criminosos comuns, segundo o MP, fornecendo serviço de proteção ao traficante José Iglesias, o "Juca", na guerra de quadrilhas paulistanas. No fim de 1968, ele teria metralhado o traficante rival Domiciano Antunes Filho, o "Luciano",  com outro comparsa, e capturado, na companhia de outros policiais associados ao crime, uma caderneta que detalhava as propinas pagas a detetives, comissários e delegados pelos traficantes. O caso chegou a ser divulgado à imprensa por um alcaguete, Odilon Marcheronide Queiróz ("Carioca"), que acabou preso por Fleury e, posteriormente, desmentiu a história a jornais de São Paulo. Carioca seria morto pelo investigador Adhemar Augusto de Oliveira, segundo o próprio revelaria a um jornalista, tempos depois.

Os atos do delegado na repressão, no entanto, lhe renderam uma Medalha do Pacificador e muita blindagem dentro do Exército, que deixou de investigar as denúncias. Promotores do MP foram alertados para interromper as investigações contra Fleury. De acordo com o relato publicado em "A Ditadura Escancarada", o procurador-geral da Justiça, Oscar Xavier de Freitas, avisou dois promotores em 1973: "Eu não recebo solicitações, apenas ordens. (…) Esqueçam tudo, não se metam em mais nada. Existem olheiros em toda parte, nos fiscalizando. Nossos telefones estão censurados".

No fim daquele ano de 1973, o delegado chegou a ter a prisão preventiva decretada pelo assassinato de um traficante, mas o Código Penal foi reescrito para que réus primários com "bons antecedentes" tivessem direito à liberdade durante a tramitação dos recursos. Em uma conversa com Heitor Ferreira, secretário do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), o general Golbery do Couto e Silva – então ministro do Gabinete Civil e um dos principais articuladores da ditadura militar – classificou assim o delegado Fleury, quando pensava em afastá-lo: "Esse é um bandido. Agora, prestou serviços e sabe muita coisa". Fleury morreu em 1979, quando ainda estava sob investigação da Justiça.

 

3 - Governadores biônicos e sob suspeita

Em 1970, uma avaliação feita pelo SNI ajudou a determinar quais seriam os governadores do Estado indicados pelo presidente Médici (1969-1974). No Paraná, Haroldo Leon Peres foi escolhido após ser elogiado pela postura favorável ao regime; um ano depois, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milhão e obrigado a renunciar. Segundo o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI no governo Geisel, os agentes teriam descoberto que Peres "era ladrão em Maringá" se o tivessem investigado adequadamente. Na Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em seu primeiro mandato no Estado, foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa.

 

4 - O caso Lutfalla


Estadão Conteúdo
Paulo Maluf

Outro governador envolvido em denúncias foi o paulista Paulo Maluf. Dois anos antes de assumir o Estado, em 1979, ele foi acusado de corrupção no caso conhecido como Lutfalla – empresa têxtil de sua mulher, Sylvia, que recebeu empréstimos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) quando estava em processo de falência. As denúncias envolviam também o ministro do Planejamento Reis Velloso, que negou as irregularidades, e terminou sem punições.

 

5 - As mordomias do regime

Em 1976, as Redações de jornal já tinham maior liberdade, apesar de ainda estarem sob censura. O jornalista Ricardo Kotscho publicou no "Estado de São Paulo" reportagens expondo as mordomias de que ministros e servidores, financiados por dinheiro público, dispunham em Brasília. Uma piscina térmica banhava a casa do ministro de Minas e Energia, enquanto o ministro do Trabalho contava com 28 empregados. Na casa do governador de Brasília, frascos de laquê e alimentos eram comprados em quantidades desmedidas – 6.800 pãezinhos teriam sido adquiridos num mesmo dia. Filmes proibidos pela censura, como o erótico "Emmanuelle", eram permitidos na casa dos servidores que os requisitavam. Na época, os ministros não viajavam em voos de carreira, e sim em jatos da Força Aérea.

Antes disso, no governo Médici já se observavam outras regalias: o ministro do Exército, cuja pasta ficava em Brasília, tinha uma casa de veraneio na serra fluminense, com direito a mordomo. Os generais de exército (quatro estrelas) possuíam dois carros, três empregados e casa decorada; os generais de brigada (duas estrelas) que iam para Brasília contavam com US$ 27 mil para comprar mobília. Cabos e sargentos prestavam serviços domésticos às autoridades, e o Planalto também pagou transporte e hospedagem a aspirantes para um churrasco na capital federal.

 

6 - Delfim e a Camargo Corrêa


Leticia Moreira/Folha Imagem
Delfim Netto
Delfim Netto – ministro da Fazenda durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e Médici, embaixador brasileiro na França no governo Geisel e ministro da Agricultura (depois Planejamento) no governo Figueiredo – sofreu algumas acusações de corrupção. Na primeira delas, em 1974, foi acusado pelo próprio Figueiredo (ainda chefe do SNI), em conversas reservadas com Geisel e Heitor Ferreira. Delfim teria beneficiado a empreiteira Camargo Corrêa a ganhar a concorrência da construção da hidrelétrica de Água Vermelha (MG). Anos depois, como embaixador, foi acusado pelo francês Jacques de la Broissia de ter prejudicado seu banco, o Crédit Commercial de France, que teria se recusado a fornecer US$ 60 milhões para a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, obra também executada pela Camargo Corrêa. Em citação reproduzida pela "Folha de S.Paulo" em 2006, Delfim falou sobre as denúncias, que foram publicadas nos livros de Elio Gaspari: "Ele [Gaspari] retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo", afirmou o ex-ministro.
Outro lado: Em relação às denúncias que envolvem seu nome nesse texto, o ex-ministro Delfim Netto respondeu ao UOL: "Trata-se de velhas intrigas que sempre foram esclarecidas. Nunca tive participação nos eventos relatados".

 

7 - As comissões da General Electric

Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em 1976, o presidente da General Electric no Brasil, Gerald Thomas Smilley, admitiu que a empresa pagou comissão a alguns funcionários no país para vender locomotivas à estatal Rede Ferroviária Federal, segundo noticiou a "Folha de S.Paulo" na época. Em 1969, a Junta Militar que sucedeu Costa e Silva e precedeu Médici havia aprovado um decreto-lei que destinava "fundos especiais" para a compra de 180 locomotivas da GE. Na época, um dos diretores da empresa no Brasil na época era Alcio Costa e Silva, irmão do ex-presidente, morto naquele mesmo ano de 1969. Na investigação de 1976, o Cade apurava a formação de um cartel de multinacionais no Brasil e o pagamento de subornos e comissões a autoridades para a obtenção de contratos.

 

8 - Newton Cruz, caso Capemi e o dossiê Baumgarten


Paula Giolito /Folhapress
Newton Cruz

O jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do SNI, foi assassinado em 1982, pouco depois de publicar um dossiê acusando o general Newton Cruz de planejar sua morte – segundo o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, em declaração de 2012, a ordem partiu do próprio SNI. A morte do jornalista teria ligação com seu conhecimento sobre as denúncias envolvendo Cruz e outros agentes do Serviço no escândalo da Agropecuária Capemi, empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da região do futuro lago de Tucuruí. Pelo menos US$ 10 milhões teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no início da década de 1980. O general foi inocentado pela morte do jornalista.

 

9 - Caso Coroa-Brastel

Delfim Netto sofreria uma terceira acusação direta de corrupção, dessa vez como ministro do Planejamento, ao lado de Ernane Galvêas, ministro da Fazenda, durante o governo Figueiredo. Segundo a acusação apresentada em 1985 pelo procurador-geral da República José Paulo Sepúlveda Pertence, os dois teriam desviado irregularmente recursos públicos por meio de um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao empresário Assis Paim, dono do grupo Coroa-Brastel, em 1981. Galvêas foi absolvido em 1994, e a acusação contra Delfim – que disse na época que a denúncia era de "iniciativa política" – não chegou a ser examinada.

 

10 - Grupo Delfin

Denúncia feita pela "Folha de S.Paulo" de dezembro de 1982 apontou que o Grupo Delfin, empresa privada de crédito imobiliário, foi beneficiado pelo governo por meio do Banco Nacional da Habitação ao obter Cr$ 70 bilhões para abater parte dos Cr$ 82 bilhões devidos ao banco. Segundo a reportagem, o valor total dos terrenos usados para a quitação era de apenas Cr$ 9 bilhões. Assustados com a notícia, clientes do grupo retiraram seus fundos, o que levou a empresa à falência pouco depois. A denúncia envolveu os nomes dos ministros Mário Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda), que chegaram a ser acusados judicialmente por causa do acordo.

(Texto originalmente publicado no sítio eletrônico UOL Notícias - Política em 01/04/15 - http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/04/01/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Todo apoio e solidariedade à greve dos Garis

(por: CSP-Conlutas RJ)

Sexta-feira, 13 de março (1), entra para história de resistência dos trabalhadores do Rio de Janeiro. Começou uma forte greve dos trabalhadores da Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro, a COMLURB. As reivindicações dos garis, de acordo com o Sindicato dos Empregados de Empresas de Asseio e Conservação, incluem o aumento salarial de 47,7% e um reajuste no vale-alimentação de R$ 20 para R$ 27, diário. A companhia oferece um aumento de 3%. Com o silêncio das suas vassouras os trabalhadores da limpeza urbana denunciam que são oferecidos 3% para quem limpa enquanto os parlamentares reajustaram seus salários em 26% para seguir sujando.


Justiça do patrão
O movimento grevista foi deflagrado em uma assembleia nesta quinta (12), os garis decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. Pouco antes das 09 horas de sexta a ágil Justiça do Trabalho considerou ilegal o movimento e notificou a categoria para voltar às atividades, sob pena de multa diária no valor de R$ 100 mil para o sindicato da classe. Os garis não se abalaram. Desde da greve do ano passado uma grande parcela destes trabalhadores sabe que a justiça do trabalho só existe para garantir a opressão e exploração do trabalhador.


O que a imprensa não disse da greve
Os jornais ao final do dia bradavam contra a greve e noticiavam que a COMLURB aumentou sua proposta de reajuste de 3 para 7%. O que a imprensa não diz é que todos os aumentos dos alimentos, do pãozinho até a carne, foram acima de 20%. Com base no total apurado para a cesta básica, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 3.182,81, 4,04 vezes mais do que o mínimo de R$ 788,00, que entrou em vigor em 1º de janeiro. Em janeiro de 2015, o mínimo necessário era menor, equivalendo a R$ 3.118,62, ou 3,96 vezes o piso vigente. Em fevereiro de 2014, o valor necessário para atender às despesas de uma família chegava a R$ 2.778,63, ou 3,84 vezes o salário mínimo então em vigor (R$ 724,00). Estas informações não são ditas para explicar a bronca do trabalhador que só vê a greve como forma de negociar uma melhor condição de vida para si e sua família.

Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão
A greve também se insere no movimento de repudio de várias categorias de trabalhadores contra o forte ajuste fiscal de Dilma, Pezão e Paes. Cinco dias antes a presidente teve coragem de pedir paciência ao povo brasileiro mesmo reafirmando o pacote de ajuste fiscal, as medidas provisórias que atacam duramente o seguro desemprego, o PIS, as pensões e outros direitos dos trabalhadores.

A CSP-Conlutas apoia incondicionalmente a luta dos garis. Estes trabalhadores dão o exemplo e mostram o caminho. Vamos juntos. O caminho é a mobilização! Não podemos cair na armadilha de “negociar” ou “emendar” as medidas de Dilma ou dos demais governos, pois qualquer negociação vai significar reduzir nossos poucos direitos. Temos de exigir a imediata retirada dessas medidas provisórias; Nós não podemos pagar pela crise que eles criaram e, de outra parte, se foi o patrão que roubou, não pode ser o trabalhador que pague o preço.

Exigimos que a COMLURB atenda todas reivindicações. Também exigimos que o Prefeito tome medidas no sentido de garantir os pleitos dos grevistas. Se Eduardo Paes aparecer nos canteiros de obras do COMPERJ vai entender o que significa solidariedade de classe.

Por fim convocamos todas as entidades e movimentos a cercarem de solidariedade, apoio político e financeiro à greve dos trabalhadores garis do Rio de Janeiro.

(Retirado de: https://cspconlutasrj.wordpress.com/about/a-luta/todo-apoio-e-solidariedade-a-greve-dos-garis/)

NOTA DO BLOGUE EXPRESSÃO LIBERTA:
(1) A sexta-feira 13 de março citada pelo autor do texto é a deste ano de 2015.

sábado, 7 de março de 2015

Após morte de vocalista, Cólera renasce com DVD e nova formação

(por: Marco de Castro)

"Qual violência é pior? Quero um mundo melhor. Qual violência é pior? Será que esse grito é em vão?", diz um trecho da música "Qual Violência", que abre o show registrado no DVD "Punhos & Vozes - Rasgando no Ar!", da banda paulistana Cólera. Lançado em abril deste ano, o trabalho traz a última apresentação feita com o vocalista e guitarrista Redson Pozzi, na casa de shows Hangar 110, tradicional espaço que reúne punks no Bom Retiro, centro de São Paulo. 

A apresentação registrada foi em abril de 2011 durante o festival Punk na Páskoa. Redson morreu cinco meses depois por conta de um rompimento de úlcera no esôfago. Um dos maiores ícones do punk rock brasileiro, quando o músico morreu, muitos fãs acreditaram que a carreira da banda estava encerrada. O grupo, porém, se reformulou e seguiu em frente com um objetivo: não deixar que o grito de seu líder e principal compositor tivesse sido "em vão", como diz a letra da canção.

"Foi o nosso público que fez com que o Cólera continuasse levando essa mensagem do Redson. Porque o Cólera não é uma banda de mídia, que toca nas rádios. Se a gente não levasse essa mensagem adiante, a banda simplesmente desapareceria do mapa. Então, até numa certa obrigação com a memória do Redson, a gente decidiu tocar o barco", resume o baixista Val, em entrevista ao UOL.

Para matar a saudade

Lançado pelo selo Red Star Recordings, "Punhos & Vozes - Rasgando no Ar!" serve para os fãs da banda matarem a saudade da performance enérgica e empolgante de Redson, que, aos 49 anos --e poucos meses antes de morrer--, dava saltos no palco, gritava e incentivava o público a entoar em coro as suas canções.

Com 17 faixas, o DVD reúne clássicos de todas as fases da banda, como "Subúrbio Geral", "Quanto Vale a Liberdade" e "Pela Paz", além de extras com fotos feitas ao longo da carreira do grupo, de 1979 a 2011, e um encarte caprichado, com mais fotografias e um texto que conta a história do Cólera.

"Esse DVD foi uma maneira legal de lembrar o Redson, por tudo que ele fez, que ajudou, participou. Por ter estado sempre presente ali, na cena punk."
(Pierre, baterista do Cólera)

"Esse DVD foi uma maneira legal de lembrar o Redson por tudo que ele fez, que ajudou, participou. Por ter estado sempre presente ali, na cena punk. Do meu ponto de vista, só posso dizer ao pessoal da Red Star um 'obrigado por terem feito isso por meu irmão'. A produção ficou muito boa", diz Pierre, baterista do Cólera e irmão mais velho de Redson.

O baixista Val lembra um momento curioso do show registrado no disco. "Houve um lance interessante nesse show, que foi o Redson praticamente 'passando a bola' para o Wendel", diz, citando Wendel Barros, o atual vocalista do Cólera. Na época da apresentação, Wendel era roadie da banda e, no final do show, Redson o chama ao palco para cantar a última música, "Histeria". "O Wendel estar cantando no final do show parece um presságio. Tipo o Redson falando: 'Vou ter que pular fora, vai treinando aí, encara a situação'", completa Pierre.

A perda do líder

Hoje, quase três anos após a morte de Redson, o Cólera continua na ativa e --para a alegria de seu público-- fazendo shows com mesma a energia que se tornou marca da banda em seus 35 anos de existência. Além de Wendel nos vocais, entrou no grupo o guitarrista Cacá Saffiotti, ex-Garotos Podres.

Pierre lembra como a perda de seu irmão e colega de banda atingiu o Cólera. "Eu e o Redson sempre tivemos a ideia de que, para apagar a luz, basta ela estar acesa, e, para morrer, basta estar vivo. Então eu encarei de uma forma meio natural a ida do Redson. Faz falta o meu irmão? Claro que faz. Mas uma falta maior ele fez mesmo com relação à banda. Foi uma perda muito grande por ele ser o mentor do Cólera, o cabeça, o compositor, o cérebro pensante".

Foto de arquivo do Cólera: da esq. para a dir., Redson, Val e Pierre
Segundo o baterista, um show do Cólera em tributo a Redson, feito em novembro de 2011, com a participação de outros músicos da cena punk, como João Gordo (Ratos de Porão) e Clemente (Inocentes), foi essencial para que o grupo seguisse adiante. "A gente viu que o público tinha uma necessidade de que a banda continuasse".

Val, por sua vez, lembra-se de um momento no enterro de Redson que pode ter sido crucial para a sobrevivência da banda. "Sugeri que a bandeira do Cólera fosse enterrada junto com o Redson. O Pierre achou melhor não. Hoje, vejo isso como um dos fatores para que o Cólera sobrevivesse. Enterrar a bandeira talvez tivesse levado o Cólera junto." De acordo com ele, com o passar dos dias e o tributo, a ideia de que a banda continuaria foi se fortalecendo. "Voltamos a tocar e houve um grande apoio. As pessoas nos cumprimentavam e diziam 'que legal que vocês continuaram!'".

No meio dos "tiozinhos"

Wendel Barros, 27 anos, não era nem nascido quando o Cólera foi fundado. Ele conta que, em 1999, quando tinha 13 anos de idade, seu irmão mais velho chegou em casa com o LP "Tente Mudar o Amanhã", do Cólera, debaixo do braço. "Gostei muito do disco e comecei a frequentar os shows. Em 2005, conheci o Redson, em um show em Santo André. Conversamos e trocamos camisetas. Em 2008, retomamos o contato por uma amiga. Comecei a frequentar a casa dele. Quando a banda partiu para a sua terceira turnê pela Europa, fiquei lá atendendo telefone e anotando recados. Depois que a banda voltou, o Redson passou a me dar aulas e comecei a estagiar como roadie", conta o atual vocalista.

Como roadie, Wendel aprendeu a deixar o palco pronto para a banda. Afinava os instrumentos e montava a bateria. "De 2008 a 2011, fiquei viajando de norte a sul do país com a banda, aprendendo o trampo na prática." Durante esse período, o jovem também se tornou vocalista do grupo Sociedade Sem Hino, que era produzido por Redson, o que o levou também a ter aulas de canto com o líder do Cólera.  Isso, segundo ele, lhe deu uma certa facilidade para assumir o posto de vocalista da banda após a morte do ídolo e amigo.

"Às vezes, eu atendia o telefone, e as pessoas pensavam que era ele. Mesma coisa quando minha mãe ligava, o Redson atendia, e ela dizia 'alô, filho.'"
(Wendel Barros, vocalista do Cólera)

"Ter tido aula de canto com ele, convivido com ele, ter a voz parecida... Às vezes, eu atendia o telefone, e as pessoas pensavam que era ele. Mesma coisa quando minha mãe ligava, o Redson atendia, e ela dizia 'alô, filho'. Tudo isso facilitou para eu fazer o vocal. Foi tudo muito natural. Hoje me sinto muito feliz. Feliz por estar aqui e cooperar para que a banda continue."

Formação atual do Cólera: da esq. para a dir., Val, Wendel, Cacá e Pierre

Para os integrantes originais, não poderia haver alguém melhor para cantar no lugar de Redson. "Nos primeiros ensaios com o Wendel, eu fechava os olhos para tocar a bateria, e a voz que eu ouvia era a do Redson. A entrada do Wendell para fazer o vocal foi tão natural, que tem horas que parece que não é o Wendel que está cantando. A timbragem de voz é muito semelhante", descreve Pierre. Val acrescenta: "Não é algo forçado. O Wendel não tenta fazer cover do Redson. É uma semelhança enorme mesmo. E não é só o timbre de voz, é a potência vocal. É algo que é superdifícil de você conseguir numa pessoa. Jamais encontraria alguém com tamanha semelhança".

Quanto à diferença de idade entre Wendel e os demais integrantes –Pierre tem 53 anos, Val tem 49, e Saffiotti, 47--, o vocalista garante que não há problema. "Não interfere em nada mesmo, pelo fato de eu ser fã desde novo. A galera me pergunta 'como é viajar com os tiozinhos?', 'como você aguenta esses tiozinhos ranzinzas' (rs). É natural", afirma ele, lembrando que a banda sempre oferece a música "Adolescente" para Pierre. "Porque ele sempre vai ter o espírito adolescente. O Val é a mesma coisa. A identificação é grande. A gente pensa junto e vai num só ideal." E Pierre completa: "No meu dia a dia, 53 anos pesa, não vou dizer que não. Mas, na hora de subir no palco, sento na bateria e, para mim, é como o primeiro show. De onde vem a energia, de onde ela surge, eu não sei. Acho que é dessa união. De todo o mundo se juntar em prol de uma coisa."

"Acorde Acorde Acorde"

A morte de Redson ocorreu quando a banda se preparava para entrar no estúdio e começar a gravar o seu sétimo disco, "Acorde Acorde Acorde". A perda do vocalista prejudicou o projeto, mas a banda garante que ele não foi cancelado.

"Se der tudo certo, até o meio do ano que vem estaremos lançando o disco", diz Val. Segundo ele, o trabalho tem, até o momento, 14 músicas, sendo só 12 com letra. Mas o grupo quer lançar o álbum com 16 faixas, algo que foi estipulado pelo próprio Redson. "Estamos escrevendo as letras." Atualmente, a banda já toca nos shows a canção "Capacete Vermelho", que estará no disco.

Antes do álbum, porém, o Cólera ainda estuda lançar quatro faixas inéditas, que farão parte do trabalho, gravadas ainda com Redson, a pedido da gravadora que seria responsável, na época, pelo "Acorde Acorde Acorde".

(Retirado de: http://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2014/07/02/colera-lanca-dvd-com-show-de-2011-e-segue-na-ativa-em-memoria-a-redson.htm)  

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Microfonia: ruido perturbando a mesmice da cultura

(por: Winter Bastos)

Cara, por que consumir revistas semanais direitistas cujo suplemento "cultural" só traz o que já está estabelecido e dominante na cultura da sociedade, sem apresentar nada de transgressor ou ousado? Comprando essas porcarias, mesmo que não vá ler a parte política, você ainda dá força e grana para essas publicações elitistas que, pelo estímulo ao neoliberalismo, nos tornam cada vez mais explorados.

Como escapar da mesmice dos "cadernos culturais" que normalmente estão disponíveis por aí?

Há algumas opções. O jornal Microfonia, de João Pessoa (PB), é uma delas. A diagramação é boa; os temas, variados: música, cinema, histórias em quadrinhos, espetáculos diversos... Por mais que muitos não gostem das bandas ou dos filmes abordados, ninguém ficará entediado com a leitura: vão ser vistas muitas coisas que a mídia convencional nunca enfoca.

Recebemos recentemente os números 22 (setembro) e 23 (novembro/2014).


Logo na primeira página do número 22, há uma entrevista com a banda Pröjjetö Macabrö, formada só por duas pessoas: Adriano Onairda (vocal/guitarra) e Vando Sujeira (bateria/vocal). Falam principalmente do primeiro CD que acabam de lançar, chamado Ruptura.  A publicação traz ainda resenhas dos discos Resistência (da banda Mollotov Attack, de São Paulo), Do Pescoço pra baixo é canela (da Knoc Down, de Pernambuco), Hitting Arround (da Mad Grinder - RN), Sexy Offender (de Glauco King & The West Wolves - Ceará) e Helga (da banda carioca de mesmo nome). Ainda nesta edição encontramos uma boa crítica ao ótimo livro Dead Kennedys: Fresh Fruit for Rotten Vegetables - os primeiros anos, sobre a lendária banda de roque pauleira udigrúdi californiana Dead Kennedys, que só lançou discos por gravadoras independentes, mas conseguiu levar sua música contestadora e iconoclasta aos mais distantes cantos do mundo.

O jornal Microfonia nº 23 tem, de início, uma entrevista com Fred, vocalista da banda Não Conformismo, que lançou o disco Autoflagelo da Humanidade em vinil. É explicado o porquê da escolha deste formato. Fred, colecionador de discos desde a adolescência, esclarece que o vinil continua sendo apreciado por uma pá de gente. Não há que se falar em "volta do vinil", como a mídia hegemônica anda repetindo por aí. O vinil nunca foi embora, portanto não se pode falar em "volta". Andar com um discão embaixo do braço para ir ouvi-lo na vitrola dum amigo no bairro vizinho nunca teve nada de esquisito, nem nos anos oitenta, nem hoje em dia.

O Microfonia 23 fala ainda das bandas Licenciosa (PB), Riiva (Finlândia), Juventude Maldita (SP), Horda Punk (SC),  Final Fight (SP) e dos conjuntos: Alice no País do LSD, Derrube o Muro, Agressivos e Pastel de Miolos (todos da Bahia). Ainda no campo da música, comenta-se o DVD Punhos & Vozes - Rasgando no ar, da banda paulista Cólera, gravado em 2011.

Microfonia conta ainda com a coluna "Atrás da Porta Verde", que traz inusitadas críticas sobre cinema pornô, bem escritas a ponto de valerem a pena serem lidas até por quem não curte esses filmes: é, no mínimo, engraçado. Há também a seção "Zubilândia" que fala sobre livros e filmes de terror.

Contatos: jornalmicrofonia@gmail.com, www.microfonia.net. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Tratando do Aviso final nº 32

(por: Winter Bastos)

Chegou às minhas mãos já há algum tempo a trigésima segunda edição do fanzine Aviso Final, que já está sendo publicado há mais de duas décadas pelo incansável professor Renato Donisete. O número anterior havia saído um ano antes, mas isso é compreensível em se tratando dum fanzine, ou seja, uma publicação independente, amadorística, feita por prazer, sem lucro e com muito amor. 

Este AF 32 foi lançado oficialmente no dia 13/04/2014 no Espaço Gambalaia em Santo André (SP) quando da apresentação das bandas O Livro Ata e Giallos. A capa deste número ficou bem interessante: a foto duma singela moçoila inserindo uma fita cassete num daqueles antigos gravadores (que não se veem mais por aí). O sorriso inocente da garota ressalta o ar retrô da fotografia, o qual contrasta de maneira instigante com o logotipo da publicação, idealizado por 1berto Daróz, que nitidamente se influenciara pela estética roqueira udigrúdi, suja e transgressora.


Sem blá-blá-blá, Aviso Final entra de sola logo na página inicial com uma entrevista com a banda Giallos. O conjunto se influencia pela temática do "cinema exploitation" (que pode ser traduzido com cinema apelativo): gênero cinematográfico que aborda seus temas de forma mórbida ou sensasionalista. Giallos, aliás, é um subgênero dentro deste campo cinematográfico, valorizado pela banda. Para saber mais, vale visitar: http://giallos.bandcamp.com//.

Na página 5, Renato Donisete nos fala de seu livro Fanzine na Educação: algumas experiências em sala de aula, lançado pela editora Marca de Fantasia (www.marcadefantasia.com).

Em seguida vem uma entrevista com o artista plástico Daniel Melim, grafiteiro que, com suas intervenções urbanas, leva beleza e questionamentos múltiplos aos transeuntes de São Paulo, principalmente. O trabalho desse cara, tão importante para a cultura, pode ser conferido em: www.melim.art.br.

Na página 10 anuncia-se o retorno da banda Varsóvia, caracterizada por influência do roque punk inglês e por letras melancólicas e introspectivas. Vê-se algo sobre a nova fase deles em: https:soundcloud.com/varsoviaweb/sets/luciez e também em: https://www.youtube.com/watch?v=HQge-y75ef8.

O fanzine Aviso Final nº 32 se encerra com chave de ouro com a história em quadrinhos Mc Body, que avacalha um bocado com as lanchonetes comida-rápida multinacionais.

Para contatar essa excelente publicação alternativa, basta escrever pro Renato Donisete – caixa postal 1035, Bairro Barcelona, São Caetano do Sul (SP), CEP 09560-970 ou avisofinal@gmail.com. Também dá pra acessar www.fotolog.com/aviso_final.       

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Achiamé está morto, porém vive!

(por: GEAPI - Grupo de Estudos Anarquistas do Piauí)


Os anarquistas historicamente deram ênfase ao conhecimento e difusão da teoria libertária. Panfletos, jornais, peças teatrais, comícios, e... Livros. Livros! A vida de um homem foi dedicada quase que inteiramente à livros. Seu nome? Robson Achiamé.

Caso você seja anarquista, caro leitor, talvez não tenha o conhecido, ou mesmo trocado nenhuma palavra com Achiamé, mas temos certeza que se olhar a sua estante destinada à teoria anarquista, certamente que encontrará um rico acervo de obras editadas por uma certa "Editora Achiamé".

O Camarada Robson, 71 aos, 47 dedicados à imprensa libertária morreu, porém vive. Observando os comentários de condolências, é possível entrever um homem bondoso, gentil, que enviava caixas de livros sem nem mesmo pedir o pagamento prévio (e por vezes, nem mesmo pagamento), um verdadeiro anarquista, que tinha prazer em divulgar as ideias libertárias.

No Piauí, cuja política é caracterizada por um forte monopólio da mídia por parte de oligarquias empresariais, a criminalização de movimentos sociais, e um tradicionalismo beirando aos czares russos, o anarquismo insiste em romper o solo árido da transformação social, e encontra resposta positiva entre trabalhadores, estudantes e populares. Foi por meio de um grande número de livros editados por Robson Achiamé que vári@s companheir@s que hoje compõem o GEAPI adentraram nas lutas e na organização anarquista. Indiretamente, o GEAPI tem muito de Robson Achiamé, assim como tantos grupos de estudos, coletivos, associações, e tantas outras formas de anarquistas dividirem, partilharem e multiplicarem as lutas e os sonhos. 

Acreditamos que a vida e a obra de Achiamé jamais serão "repetidas", mas que sejam o espelho de novas experiências em edição de livros anarquistas no Brasil, assim como a dedicação, a amizade e o compromisso de Robson. 

O anarquismo em língua portuguesa com certeza perde em muito com a morte do companheiro, mas não cessará. Esta talvez seja a forma de agradecer todo o esforço e dedicação de Robson Achiamé Fernandes: Militando, organizando e lutando por um mundo novo, o mundo que carregamos em nossos corações. 

Que a terra lhe seja leve!

Para sempre, PRESENTE!

(Publicado originalmente em http://anarquistas-pi.blogspot.com.br/, por ocasião do falecimento de Robson, que se deu a  09/11/14)

sábado, 20 de dezembro de 2014

Sindicato verifica condições insalubres na redação do jornal ‘Lance!’

(por: Sindicato dos Jornalistas-RJ)

De olho no Lance. A diretoria do Sindicato dos Jornalistas encontrou um cenário caótico ao chegar na redação do jornal esportivo ‘Lance!’ nesta sexta-feira (19/12/14). De mudança, a empresa tem submetido os trabalhadores a condições insalubres em um ambiente cheio de lixo e poeira, favorecendo o surgimento de doenças respiratórias entre os jornalistas. Os profissionais precisam ainda desviar de armadilhas, como fios espalhados pelo chão e piso solto, e enfrentar o calor de dezembro sem ar condicionado. A mudança reduziu o espaço da redação, o que obrigou os cerca de 40 funcionários da empresa a se amontoarem nas mesas que restaram. O Sindicato tomara as medidas cabíveis após o recesso de fim de ano no Judiciário.

Não será a primeira vez que o jornal será denunciado por irregularidades trabalhistas. Até outubro deste ano, a empresa participava de mesa redonda com o Sindicato onde se comprometeu a pagar os atrasados da participação de lucros e resultados prevista na convenção coletiva. O ‘Lance!’ disse ainda que adotará o ponto eletrônico e pagará adicional noturno a partir de janeiro.

O Sindicato ainda cobra a resolução de problemas como o não pagamento de horas extras; acúmulo de função; jornada estendida por mais de seis dias sem folga; falta de clareza na compensação de folgas; ausência de equipamentos de proteção individual; estagiários desempenhando trabalho de jornalista; falta de ergonomia e equipamentos ultrapassados. A empresa demitiu 30 profissionais no Rio este ano.

(Publicado originalmente em: http://jornalistas.org.br/index.php/sindicato-verifica-condicoes-insalubres-na-redacao-do-jornal-lance/)